“A raiva não tem ideologia”: por que razão o voto de protesto está a empurrar a Europa para a extrema-direita?

Extrema-direita está hoje a conseguir captar uma parcela crescente desse voto de protesto, apresentando-se como a força capaz de romper com partidos tradicionais que muitos eleitores consideram incapazes de responder a problemas como habitação, imigração, insegurança económica ou perda de poder de compra

Francisco Laranjeira

Há cerca de uma década, uma parte importante da revolta contra os partidos tradicionais europeus encontrou resposta à esquerda. Podemos em Espanha, Syriza na Grécia ou La France Insoumise em França cresceram apresentando-se como alternativas a um sistema político incapaz de responder às consequências da crise económica e ao descontentamento social.

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A raiva não desapareceu. Mas parece ter mudado de destinatário.

A extrema-direita está hoje a conseguir captar uma parcela crescente desse voto de protesto, apresentando-se como a força capaz de romper com partidos tradicionais que muitos eleitores consideram incapazes de responder a problemas como habitação, imigração, insegurança económica ou perda de poder de compra.

O fenómeno é particularmente visível na Alemanha.

A Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu este mês as eleições regionais na Saxónia-Anhalt com 43,8% dos votos, mais do dobro dos 20,8% alcançados em 2021. A CDU, partido do chanceler Friedrich Merz, ficou reduzida a 17,2%, depois de ter obtido 37,1% cinco anos antes.

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Não foi uma vitória provocada simplesmente pela desmobilização dos adversários.

A participação chegou aos 77,8%, mais 17,5 pontos percentuais do que em 2021 e o nível mais elevado registado no estado desde 1989, segundo a análise do Centre for Eastern Studies aos resultados oficiais.

A AfD conseguiu 39 dos 83 lugares do parlamento regional, ficando apenas três deputados abaixo da maioria absoluta.

O resultado voltou a colocar uma pergunta no centro da política europeia: por que razão uma parte crescente dos eleitores descontentes está a escolher a extrema-direita para castigar o sistema?

“A raiva, por si só, não tem ideologia”

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Elsa Arnaiz, presidente da organização Talent for the Future, começa precisamente por rejeitar a ideia de que o descontentamento conduz inevitavelmente a determinada família política.

“A raiva, por si só, não tem ideologia”, explica ao jornal espanhol 20 Minutos.

Um eleitor pode estar descontente com a dificuldade de encontrar casa, a precariedade laboral, a imigração, a falta de oportunidades ou simplesmente com a sensação de que as instituições deixaram de responder aos seus problemas.

Nenhuma dessas preocupações conduz automaticamente à extrema-direita.

O que mudou, segundo Arnaiz, foi a capacidade destas forças para identificar e transformar esse descontentamento numa mensagem política.

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Os partidos de extrema-direita “detetaram inquietações, medos e mudanças culturais” que uma parte da política tradicional ignorou, minimizou ou tentou explicar através de uma linguagem que não encontrou correspondência junto dos eleitores.

E fizeram outra coisa: simplificaram.

“Sabemos qual é o problema, quem é o responsável e o que deve ser feito”

É aqui que surge uma das diferenças fundamentais identificadas pela especialista.

Perante problemas complexos, os partidos tradicionais tendem a explicar as limitações existentes: competências nacionais ou europeias, mercados, tribunais, restrições orçamentais, negociações entre diferentes governos ou necessidade de compromissos políticos.

A extrema-direita apresenta frequentemente uma narrativa muito mais simples.

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“Sabemos qual é o problema, sabemos quem é o responsável e sabemos o que precisa de ser feito”, resume Arnaiz sobre a lógica desta comunicação política.

Isso não significa que a solução apresentada seja necessariamente exequível.

Mas pode torná-la eleitoralmente eficaz.

Segundo a especialista, estas forças oferecem “clareza em vez de complexidade, culpados reconhecíveis em vez de problemas difusos e a promessa de retomar o controlo em vez de uma sensação de impotência”.

É uma fórmula particularmente poderosa perante eleitores que deixaram de acreditar que a política tradicional consegue resolver os seus problemas.

Como pode a extrema-direita continuar a ser “anti-sistema” depois de anos no sistema?

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Há, contudo, um paradoxo.

AfD, Vox, Reunião Nacional ou Irmãos de Itália já não são movimentos recém-chegados à política europeia. Têm deputados, estruturas profissionais, financiamento, representação regional e, em alguns casos, experiência governativa.

Giorgia Meloni governa Itália desde 2022.

Ainda assim, muitos destes partidos continuam a conseguir apresentar-se como forças exteriores ao sistema contra o qual os eleitores protestam.

Arnaiz considera precisamente essa capacidade uma das explicações para o seu crescimento.

Os partidos tradicionais carregam décadas de decisões, crises, promessas falhadas e participação governativa. A extrema-direita, mesmo depois de vários anos dentro das instituições, conseguiu em muitos casos preservar a imagem de outsider.

Pode, assim, “apontar as falhas do sistema sem ainda ser percebida como totalmente responsável por elas”, sustenta.

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“Votar na extrema-direita é também votar contra as elites”

Adrián Caballero, cientista político, professor associado da Universidade Autónoma de Barcelona e diretor do projeto Simple Política, acrescenta outro elemento.

A ascensão destas forças não pode ser analisada exclusivamente através do velho eixo esquerda-direita.

Na sua leitura, existe uma sensação crescente de que “a política tradicional não está a resolver os problemas” dos cidadãos.

É precisamente aqui que encontra uma semelhança com os movimentos de protesto que cresceram na década passada.

O destinatário do voto mudou, mas parte da motivação permanece.

“Votar na extrema-direita é também votar contra as elites”, explica Caballero ao 20 Minutos.

Partidos como Vox, AfD, Irmãos de Itália ou Reunião Nacional conseguiram, segundo o especialista, estabelecer uma ligação eficaz com preocupações que uma parte do eleitorado considera ignoradas pelos partidos tradicionais.

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E os jovens?

As redes sociais tornam particularmente visível a adesão de jovens a algumas destas forças, mas Caballero deixa uma advertência: não são necessariamente eles que explicam eleitoralmente o fenómeno.

O especialista considera relevante o afastamento geracional em relação às experiências europeias de ditadura, autoritarismo e pós-guerra.

As gerações mais novas cresceram mais distantes dessas memórias históricas — em determinados casos, nem sequer os seus pais as viveram diretamente —, o que pode alterar a forma como determinadas propostas políticas são interpretadas.

Mas isso não significa que os jovens constituam o bloco decisivo.

Para alterarem sozinhos o resultado de uma eleição teriam de votar em massa, sublinha Caballero, algo que os dados de participação não sustentam.

Da Alemanha a França, Espanha e Itália

O fenómeno também está longe de se limitar à Alemanha.

Em Itália, Giorgia Meloni transformou os Irmãos de Itália numa das principais forças da direita europeia depois de vencer as eleições de 2022 com cerca de 26% dos votos. O partido continua a liderar as intenções de voto no país.

Em Espanha, o Vox mantém uma implantação importante e participa ou participou nos últimos anos em diferentes estruturas de poder regional, enquanto as sondagens continuam a apontar para a possibilidade de PP e Vox reunirem uma maioria eleitoral à direita.

França será outro dos grandes testes.

A Reunião Nacional tornou-se a força francesa mais votada nas eleições europeias de 2024 e chega ao ciclo presidencial de 2027 numa posição que a coloca no centro da disputa pelo poder.

O denominador comum não significa que todos estes partidos sejam iguais — uma distinção salientada pelos próprios especialistas ouvidos pelo ’20 Minutos’.

Existem diferenças substanciais entre eles, das posições económicas à relação com a União Europeia, Rússia ou NATO.

Mas partilham mecanismos políticos semelhantes para captar descontentamento.

O cliente passou a ser o eleitor

Caballero acrescenta finalmente uma explicação menos ideológica: marketing.

O marketing político utiliza técnicas semelhantes às do marketing comercial, procurando conhecer profundamente o potencial “cliente”.

Neste caso, o cliente é o eleitor.

Perceber o que teme, aquilo que considera injusto, os assuntos que o mobilizam e até a linguagem através da qual interpreta esses problemas permite construir mensagens muito mais eficazes.

E é precisamente aí que, segundo Caballero, várias forças de extrema-direita ganharam vantagem.

Não necessariamente porque tenham criado o descontentamento.

Mas porque conseguiram identificá-lo, dar-lhe uma explicação simples e convencer uma parte dos eleitores de que representam uma alternativa a quem governou durante décadas.

Há dez anos, uma parte da indignação europeia procurou essa alternativa à esquerda.

Hoje, cada vez mais eleitores procuram-na no extremo oposto.

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