Há cerca de uma década, uma parte importante da revolta contra os partidos tradicionais europeus encontrou resposta à esquerda. Podemos em Espanha, Syriza na Grécia ou La France Insoumise em França cresceram apresentando-se como alternativas a um sistema político incapaz de responder às consequências da crise económica e ao descontentamento social.
A raiva não desapareceu. Mas parece ter mudado de destinatário.
A extrema-direita está hoje a conseguir captar uma parcela crescente desse voto de protesto, apresentando-se como a força capaz de romper com partidos tradicionais que muitos eleitores consideram incapazes de responder a problemas como habitação, imigração, insegurança económica ou perda de poder de compra.
O fenómeno é particularmente visível na Alemanha.
A Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu este mês as eleições regionais na Saxónia-Anhalt com 43,8% dos votos, mais do dobro dos 20,8% alcançados em 2021. A CDU, partido do chanceler Friedrich Merz, ficou reduzida a 17,2%, depois de ter obtido 37,1% cinco anos antes.
Não foi uma vitória provocada simplesmente pela desmobilização dos adversários.
A participação chegou aos 77,8%, mais 17,5 pontos percentuais do que em 2021 e o nível mais elevado registado no estado desde 1989, segundo a análise do Centre for Eastern Studies aos resultados oficiais.
A AfD conseguiu 39 dos 83 lugares do parlamento regional, ficando apenas três deputados abaixo da maioria absoluta.
O resultado voltou a colocar uma pergunta no centro da política europeia: por que razão uma parte crescente dos eleitores descontentes está a escolher a extrema-direita para castigar o sistema?
“A raiva, por si só, não tem ideologia”
Elsa Arnaiz, presidente da organização Talent for the Future, começa precisamente por rejeitar a ideia de que o descontentamento conduz inevitavelmente a determinada família política.
“A raiva, por si só, não tem ideologia”, explica ao jornal espanhol 20 Minutos.
Um eleitor pode estar descontente com a dificuldade de encontrar casa, a precariedade laboral, a imigração, a falta de oportunidades ou simplesmente com a sensação de que as instituições deixaram de responder aos seus problemas.
Nenhuma dessas preocupações conduz automaticamente à extrema-direita.
O que mudou, segundo Arnaiz, foi a capacidade destas forças para identificar e transformar esse descontentamento numa mensagem política.
Os partidos de extrema-direita “detetaram inquietações, medos e mudanças culturais” que uma parte da política tradicional ignorou, minimizou ou tentou explicar através de uma linguagem que não encontrou correspondência junto dos eleitores.
E fizeram outra coisa: simplificaram.
“Sabemos qual é o problema, quem é o responsável e o que deve ser feito”
É aqui que surge uma das diferenças fundamentais identificadas pela especialista.
Perante problemas complexos, os partidos tradicionais tendem a explicar as limitações existentes: competências nacionais ou europeias, mercados, tribunais, restrições orçamentais, negociações entre diferentes governos ou necessidade de compromissos políticos.
A extrema-direita apresenta frequentemente uma narrativa muito mais simples.
“Sabemos qual é o problema, sabemos quem é o responsável e sabemos o que precisa de ser feito”, resume Arnaiz sobre a lógica desta comunicação política.
Isso não significa que a solução apresentada seja necessariamente exequível.
Mas pode torná-la eleitoralmente eficaz.
Segundo a especialista, estas forças oferecem “clareza em vez de complexidade, culpados reconhecíveis em vez de problemas difusos e a promessa de retomar o controlo em vez de uma sensação de impotência”.
É uma fórmula particularmente poderosa perante eleitores que deixaram de acreditar que a política tradicional consegue resolver os seus problemas.
Como pode a extrema-direita continuar a ser “anti-sistema” depois de anos no sistema?
Há, contudo, um paradoxo.
AfD, Vox, Reunião Nacional ou Irmãos de Itália já não são movimentos recém-chegados à política europeia. Têm deputados, estruturas profissionais, financiamento, representação regional e, em alguns casos, experiência governativa.
Giorgia Meloni governa Itália desde 2022.
Ainda assim, muitos destes partidos continuam a conseguir apresentar-se como forças exteriores ao sistema contra o qual os eleitores protestam.
Arnaiz considera precisamente essa capacidade uma das explicações para o seu crescimento.
Os partidos tradicionais carregam décadas de decisões, crises, promessas falhadas e participação governativa. A extrema-direita, mesmo depois de vários anos dentro das instituições, conseguiu em muitos casos preservar a imagem de outsider.
Pode, assim, “apontar as falhas do sistema sem ainda ser percebida como totalmente responsável por elas”, sustenta.
“Votar na extrema-direita é também votar contra as elites”
Adrián Caballero, cientista político, professor associado da Universidade Autónoma de Barcelona e diretor do projeto Simple Política, acrescenta outro elemento.
A ascensão destas forças não pode ser analisada exclusivamente através do velho eixo esquerda-direita.
Na sua leitura, existe uma sensação crescente de que “a política tradicional não está a resolver os problemas” dos cidadãos.
É precisamente aqui que encontra uma semelhança com os movimentos de protesto que cresceram na década passada.
O destinatário do voto mudou, mas parte da motivação permanece.
“Votar na extrema-direita é também votar contra as elites”, explica Caballero ao 20 Minutos.
Partidos como Vox, AfD, Irmãos de Itália ou Reunião Nacional conseguiram, segundo o especialista, estabelecer uma ligação eficaz com preocupações que uma parte do eleitorado considera ignoradas pelos partidos tradicionais.
E os jovens?
As redes sociais tornam particularmente visível a adesão de jovens a algumas destas forças, mas Caballero deixa uma advertência: não são necessariamente eles que explicam eleitoralmente o fenómeno.
O especialista considera relevante o afastamento geracional em relação às experiências europeias de ditadura, autoritarismo e pós-guerra.
As gerações mais novas cresceram mais distantes dessas memórias históricas — em determinados casos, nem sequer os seus pais as viveram diretamente —, o que pode alterar a forma como determinadas propostas políticas são interpretadas.
Mas isso não significa que os jovens constituam o bloco decisivo.
Para alterarem sozinhos o resultado de uma eleição teriam de votar em massa, sublinha Caballero, algo que os dados de participação não sustentam.
Da Alemanha a França, Espanha e Itália
O fenómeno também está longe de se limitar à Alemanha.
Em Itália, Giorgia Meloni transformou os Irmãos de Itália numa das principais forças da direita europeia depois de vencer as eleições de 2022 com cerca de 26% dos votos. O partido continua a liderar as intenções de voto no país.
Em Espanha, o Vox mantém uma implantação importante e participa ou participou nos últimos anos em diferentes estruturas de poder regional, enquanto as sondagens continuam a apontar para a possibilidade de PP e Vox reunirem uma maioria eleitoral à direita.
França será outro dos grandes testes.
A Reunião Nacional tornou-se a força francesa mais votada nas eleições europeias de 2024 e chega ao ciclo presidencial de 2027 numa posição que a coloca no centro da disputa pelo poder.
O denominador comum não significa que todos estes partidos sejam iguais — uma distinção salientada pelos próprios especialistas ouvidos pelo ’20 Minutos’.
Existem diferenças substanciais entre eles, das posições económicas à relação com a União Europeia, Rússia ou NATO.
Mas partilham mecanismos políticos semelhantes para captar descontentamento.
O cliente passou a ser o eleitor
Caballero acrescenta finalmente uma explicação menos ideológica: marketing.
O marketing político utiliza técnicas semelhantes às do marketing comercial, procurando conhecer profundamente o potencial “cliente”.
Neste caso, o cliente é o eleitor.
Perceber o que teme, aquilo que considera injusto, os assuntos que o mobilizam e até a linguagem através da qual interpreta esses problemas permite construir mensagens muito mais eficazes.
E é precisamente aí que, segundo Caballero, várias forças de extrema-direita ganharam vantagem.
Não necessariamente porque tenham criado o descontentamento.
Mas porque conseguiram identificá-lo, dar-lhe uma explicação simples e convencer uma parte dos eleitores de que representam uma alternativa a quem governou durante décadas.
Há dez anos, uma parte da indignação europeia procurou essa alternativa à esquerda.
Hoje, cada vez mais eleitores procuram-na no extremo oposto.














