À prova de variantes: Vacina universal contra a covid-19 pode estar para breve

Cientistas de todo o mundo trabalham para encontrar uma vacina que seja eficaz contra as várias variantes do coronavírus

Francisco Laranjeira

A necessidade de uma ‘supervacina’ abrangente ao coronavírus está a crescer – segundo as autoridades de saúde pública, três novas doenças associadas surgiram em apenas 20 anos: primeiro, o SARS, depois o MERS em 2012 e agora a Covid-19.

“Queremos algo que seja amplamente protetor, de modo que, quando o próximo vírus passar dos animais para os humanos, já tenhamos uma vacina em mãos”, explicou Melanie Saville , chefe de pesquisa e desenvolvimento de vacinas da ‘Coalition for Epidemic Preparedness Innovations’ (CEPI), organização global sem fins lucrativos com sede em Oslo. A CEPI planeia gastar 200 milhões de dólares para desenvolver vacinas de ampla ação contra o coronavírus nos próximos cinco anos. Uma das suas primeiras doações no âmbito do programa foi concedida em novembro à MigVax Ltd., de Israel, uma startup de financiamento coletivo que trabalhava numa vacina contra a Covid-19 “à prova de variantes” em forma de comprimido.

Uma vacina de ação ampla poderia fornecer uma arma pronta para uso contra ameaças como a Ómicron, que tem muito mais mutações do que qualquer variante identificada anteriormente e que investigadores e Governos estão a lutar para entender e desenvolver reforços. “Depois da Delta, vai haver outra coisa, até que acabemos as letras gregas”, informou o investigador da Universidade da Pensilvânia, Drew Weissman, dias antes de a Ómicron ser nomeada. “Ao fazer um reforço, estamos sempre um passo atrás.”

Weissman, um dos pioneiros na tecnologia-chave usada nas vacinas de RNA mensageiro da Pfizer e Moderna, está entre os que trabalham com vacinas contra o coronavírus. Inicialmente, essas vacinas provavelmente vão concentrar-se em parentes próximos da Covid-19 mas o objetivo mais ambicioso é proteger contra uma ampla gama de coronavírus, incluindo as várias estirpes que causam uma gripe comum. Dada a abundância na natureza, há todos os motivos para esperar mais epidemias do tipo Covid-19. O futuro pode ser “tão mau ou até pior do que o que estamos a passar agora”, frisou Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos e principal consultor médico do presidente Joe Biden. “Em vez de responder ao próximo surto, é fundamental desenvolver uma vacina que proteja contra todas as iterações do coronavírus.”

Em setembro, a agência de Fauci anunciou 36,3 milhões de dólares em financiamento para pesquisas de vacinas contra o coronavírus por cientistas de Harvard, Duke e da Universidade de Wisconsin. Mais de uma dúzia de equipas académicas, junto com um punhado de empresas de biotecnologia, estão a trabalhar no problema. Os laboratórios da Duke e de algumas outras universidades dos Estados Unidos já criaram protótipos que demonstram respostas imunes de vírus cruzado potentes em animais, incluindo contra SARS-CoV-1, SARS-CoV-2 e alguns coronavírus de morcego relacionados. O Instituto de Pesquisa do Exército Walter Reed também tem uma injeção que se mostrou promissora contra vários coronavírus: a sua formulação está em teste humano de Fase 1, uma das primeiras injeções a chegar tão longe.

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As primeiras vacinas contra a gripe continham duas estirpes virais, depois três na década de 1970 e, finalmente, quatro na última década. A pesquisa concentrou-se fortemente em atacar a proteína mais abundante encontrada na superfície de um vírus, a hemaglutinina, com vacinas contra a gripe selecionadas a cada ano com base em sua capacidade de gerar anticorpos contra ela. Mas durante grande parte da história da vacina, os médicos não conseguiram medir com precisão o desempenho das vacinas no mundo real.

Ao longo dos anos, os cientistas criaram vacinas contra a gripe que usam métodos de produção mais modernos e rápidos, incluindo uma vacina contra a gripe geneticamente modificada cultivada em células de insetos, mas não houve avanços na eficácia. Os esforços para desenvolver uma vacina universal que funcionasse contra todas as variantes não aumentaram seriamente até depois de a versão H1N1 da gripe ter varrido o mundo em 2009.

As vacinas da Covid-19 empregam tecnologia mais avançada do que a maioria das vacinas contra a gripe, mas, como as vacinas contra a gripe, até agora focaram amplamente no alvo mais óbvio – no caso delas, a proteína ‘spike’ do SARS-CoV-2, usada para entrar nas células. As vacinas de mRNA fazem com que o corpo produza milhões de cópias da proteína, estimulando uma resposta imunológica potente. Obviamente, essa tem sido uma estratégia inteligente, dada a eficácia impressionante demonstrada pelas vacinas Moderna e Pfizer-BioNTech.

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Pamela Bjorkman, bióloga estrutural do Caltech, passou grande parte da sua carreira tentando em vão desenvolver vacinas contra o HIV, um dos vírus de mutação mais rápidos já descobertos. Quando a Covid-19 apareceu, ela começou a ler artigos antigos dos poucos cientistas que fizeram pesquisas sobre o coronavírus antes de 2020. “Todos os artigos que li de investigadores do coronavírus disseram que é apenas uma questão de tempo antes que tenhamos uma enorme pandemia causada por um coronavírus”, lembrou.

É verdade que os cientistas há muito sonham em desenvolver uma vacina que elimine a necessidade de uma vacina anual contra a gripe. Não houve qualquer avanço, embora vários testes estejam em andamento. A dificuldade tem sido o ritmo da mutação: a gripe evolui rapidamente. A velocidade com que os coronavírus evoluem é intensamente debatida, mas o caso de vacinas de ação ampla é, no entanto, convincente, dados os resultados promissores das primeiras tentativas.

A longo prazo, segundo Bjorkman, a parte mais difícil de desenvolver uma vacina universal de coronavírus pode acabar por ser a economia e não a ciência. “Da forma como está, os incentivos comerciais mais óbvios vão contra a criação e fabrico de vacinas contra o coronavírus”, conclui.

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