A poupança como desígnio nacional: Opinião de Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander Portugal

Em 2019, as famílias pouparam 7% do seu rendimento disponível, o que compara com uma média da Zona Euro de 12,5%, ou seja é pouco mais de metade da média desta região. Nos últimos 20 anos, assistimos a uma descida consistente da taxa de poupança. E nem o facto de estarmos em 10%, muito em função do momento de pandemia que condicionou o consumo, altera o facto de continuarmos a ser dos países da Europa que menos poupa e mais consome, em função do seu rendimento disponível. Esta situação é, talvez, o maior entrave ao desenvolvimento sustentável do País, que não tem a necessária atenção de governantes, empresas e famílias, quando deveria estar no topo das prioridades de todos nós.

Primeiro, porque sem poupança não pode haver investimento produtivo sustentado, e sem investimento o crescimento da economia fica necessariamente comprometido.

Segundo, porque as famílias, ao terem um nível de poupança tão baixo, privilegiando o consumo, não estão a garantir o seu bem-estar futuro, não só para assegurarem uma reforma adequada, mas também para fazer face aos custos de saúde, que aumentam exponencialmente com a idade.

E, terceiro, em situações como as que vivemos agora, dispor de uma “almofada” de poupança, mesmo que seja pequena, pode muitas vezes, significar a diferença entre ter a capacidade de subsistir ou não, durante uma crise.

A promoção da poupança deveria ser uma prioridade nacional. O que fazer então para aumentar a poupança? A primeira medida é aumentar o rendimento. Parece óbvio, mas a verdade é que nos últimos anos Portugal tem apostado num modelo de desenvolvimento económico baseado mais na redistribuição do rendimento, alicerçado no consumo privado, e menos num modelo de crescimento sustentado, apoiado no conhecimento, investimento e na produtividade. Nos últimos 20 anos, o PIB per capita em Portugal cresceu em média 0,8% ao ano. É manifestamente pouco e é nossa obrigação, enquanto País, fazer mais, sob pena de comprometer, uma equitativa redistribuição do rendimento.

A aprovação do novo quadro financeiro plurianual, mas em especial do Mecanismo de Recuperação e Resiliência, propiciam uma oportunidade para promover a transformação da economia e reforçar o potencial de crescimento. Contudo, e infelizmente, a evidência parece mostrar um maior foco da utilização desses fundos no estímulo imediato, e menos no crescimento futuro.

Adicionalmente, quando olhamos para o aumento da carga fiscal sobre o rendimento e sobre o consumo, nas duas últimas décadas, estima-se, que só por este efeito, a taxa de poupança tenha sido penalizada em cerca de 2,4 p.p. do rendimento disponível. Ou seja, o aumento da carga fiscal subtraiu cerca de 25% da taxa de poupança das famílias neste período. É crítico reverter esta tendência de aumento da carga fiscal sobre a economia.

As famílias devem encarar o consumo de forma mais sustentável face ao rendimento, gastando o que tem que ser no necessário, e eventualmente no conveniente, mas evitando gastos supérfluos ou de luxo. Vivemos numa sociedade onde se promove demasiado o consumo como fonte de bem-estar, quando o verdadeiro bem-estar tem muito pouco que ver com coisas materiais.

Nas empresas, a sua promoção pode ocorrer através da alocação de uma percentagem maior da remuneração aos colaboradores em planos de poupança e reforma. Esta situação deveria ser acompanhada de maiores incentivos fiscais para empresas que o fizessem, mas também para os colaboradores, como a isenção, em sede de IRS, desse rendimento. Por último, é fundamental aumentar a consciencialização do nosso País para o tema, apostando na literacia financeira, através de novas disciplinas nos currículos escolares, e promovendo formação junto dos demais escalões etários. Portugal tem perdido décadas de convergência com a Europa. A reversão desta situação pode bem começar pela poupança. Se o fizermos, estou certo que deixaremos um País mais forte, dinâmico e competitivo para as gerações futuras.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 176 de Novembro de 2020

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