Blanche Mortemard acaba de receber um título improvável: o de pior fotógrafa do mundo. A parisiense venceu um concurso internacional lançado pela Icelandair, depois de superar 127.642 candidatos de 178 países, noticia a ‘Euronews’. O prémio? Dez dias a viajar pela Islândia, uma missão fotográfica feita à sua medida e 50.000 dólares, cerca de 43.000 euros.
Na maioria dos concursos de fotografia, um horizonte torto, uma imagem tremida, um dedo a tapar a lente ou uma orelha intrusa seriam motivo para esquecer qualquer hipótese de vitória. Neste caso, foram precisamente esses erros que ajudaram Mortemard a ganhar.
A campanha da companhia aérea islandesa partia de uma ideia simples: a Islândia é tão fotogénica que nem a pior fotógrafa do mundo conseguiria fazê-la parecer mal. Para o provar, lançou uma procura global por alguém com talento raro para tirar más fotografias. A resposta foi massiva.
O portefólio vencedor fala por si. Entre as imagens escolhidas pelo júri está uma paisagem nevada de Oslo parcialmente ocupada por um polegar, uma fotografia tremida e mal exposta tirada aproximadamente na direção da Estátua da Liberdade e uma gaivota pousada num candeeiro, acompanhada no enquadramento por aquilo que parece ser um lóbulo de orelha – pode ver o vídeo aqui.
A arte de falhar com convicção
Mortemard recebeu o título com humor. Durante anos, contou, amigos e familiares perguntaram-lhe porque é que as suas fotografias tinham sempre um ar dececionante. Agora, diz ter finalmente uma resposta: estava a treinar para este papel.
A vencedora descreveu o projeto como uma celebração da imperfeição e admitiu que este deverá ter sido o único concurso de fotografia em que alguma vez teve hipóteses reais de vencer. O júri, por sua vez, destacou a sua “admirável falta de competências” e de conhecimentos básicos de fotografia.
Segundo a ‘Euronews’, a Icelandair considerou que a campanha teve eco internacional porque muitas pessoas estão cansadas da perfeição fabricada. Gísli S. Brynjólfsson, diretor global de marketing da companhia, afirmou que a coragem de Mortemard em abraçar a autenticidade em vez da encenação acabou por se destacar entre todas as candidaturas.
A Islândia como teste final
A nova missão de Blanche Mortemard será passar dez dias a fotografar a Islândia. A pergunta que fica no centro da campanha é quase científica: será possível alguém ser tão mau a fotografar que consiga falhar mesmo perante uma das paisagens mais espetaculares do mundo?
A própria vencedora promete encarar a viagem com “a confiança de uma fotógrafa profissional” e as capacidades de alguém que, claramente, não o é. “Se a Islândia conseguir sobreviver a ser fotografada por mim, consegue sobreviver a tudo”, brincou.
A viagem será acompanhada por um honorário de 50.000 dólares, equivalente a cerca de 43.000 euros, valor destinado a cobrir o tempo, as despesas e, naturalmente, as fotografias.
Numa era em que as redes sociais vivem de imagens polidas, filtros, enquadramentos perfeitos e viagens cuidadosamente encenadas, a campanha destaca-se por ir no sentido contrário. Em vez de procurar a fotografia perfeita, escolheu a falha, o dedo na lente, o tremido e o enquadramento impossível.
A Islândia, essa, fica avisada. Vem aí uma fotógrafa oficialmente péssima. E talvez seja precisamente isso que torne as imagens mais memoráveis.



