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«A perplexidade de viver os novos “Loucos Anos 20”»: Opinião de Clara Raposo, Presidente do ISEG

Depois de passarmos todo um ano a pensar e trabalhar assuntos sérios e exigentes, sabe bem aproveitar umas semanas no Verão que nos dão tréguas e nos permitem alguma diversão mais despreocupada. Mas 2020 não é um ano normal, pelo menos segundo os padrões da minha geração, que nunca se viu a braços com uma crise da natureza da actual pandemia.

Nem a silly season 2020 foi igual: as férias foram divertidas q.b., aventurosas q.b., descontraídas q.b., o convívio com amigos foi q.b. e a despreocupação foi condicionada – não só pelas dúvidas quanto ao verdadeiro risco a que estivemos sujeitos em cada movimento que fizemos durante o verão, mas também pela dificuldade em percebermos como retomar a nossa actividade normal. No fundo, este ano as férias foram menos ambiciosas, mas mais profundamente sentidas e apreciadas. Simplesmente porque valorizámos mais a vida. E também porque não sabemos o que fazer daqui para a frente… ou melhor, até sabemos, mas não é nada aquilo que gostaríamos que fosse! Daí que este ano custe mais abraçar a rentrée com o fogo no olhar.

Ao fim de oito meses, classifico 2020 como o meu ano da perplexidade. A perplexidade que eu sinto sei que é partilhada. Por muitos planos e cenários que tivéssemos feito em 2019, não conheço ninguém que tivesse previsto esta quebra de estrutura tão profunda, que nos mergulhou numa crise de saúde pública à escala planetária e que, prolongando-se, trava a fundo a economia do mundo. Chegámos a 2020 e precisámos de mais Estado e de mais coordenação e ainda não vemos aquela luz brilhante, de forma contínua, ao fundo do túnel.

É verdade que muitas organizações souberam reagir perante a crise, refugiando-se em novas soluções tecnológicas para prosseguirem a sua actividade o melhor possível. Com teletrabalho, reuniões remotas e uma parte significativa das nossas vidas a ser vivida digitalmente em apenas 2D (embora com 4G), adaptámo-nos e habituámo-nos, essencialmente, a estarmos mais por casa e a prescindirmos, em larga medida, da nossa terceira dimensão, mais física e táctil.

Para ser sincera, o desafio tem sido imenso e confesso que me dediquei, trabalhei em equipa, liderei, motivei e até me comovi com o processo de transição que fizemos, no semestre passado, no ISEG. A nível pessoal e familiar, foi também uma descoberta e um prazer mudar-me para o campo e assim viver mais de cinco meses em comunhão com a natureza e o meu núcleo duro. Mas já sinto saudades de podermos tomar decisões e implementarmos mudanças de forma livre, porque queremos e não porque temos de. Ou seja, estou em crer que vamos voltar a fazer bem aquilo que tem de ser feito, mas o prolongar desta situação já satura e vai ser mais penoso continuarmos a viver e trabalhar à distância.

Mas aquilo que não nos pode fazer falta é a esperança de que a situação melhore. Para que isso aconteça, é preciso puxarmos pela cabeça e pela riqueza da nossa imaginação. Tenho andado a pensar em algo que me anime e mantenha a energia lá no topo e cheguei a uma espécie de “analogia de trás para a frente” (já de si um novo conceito)… com os “Roaring Twenties” do século XX. Se pensarmos bem, não é a primeira vez que os Anos 20 são “diferentes”, nada banais.

Fiz um pequeno teste num circuito próximo. Quando se pergunta a um(a) executivo(a) “então e os Anos 20?”, as palavras que vêm à cabeça são: década de prosperidade a seguir à I Guerra, década de alegria e exuberância cultural no mundo ocidental, em cidades como Chicago, Nova Iorque, Berlim ou Londres, crescimento económico sustentado, afirmação de democracias e dos direitos das mulheres, a alegria do jazz, do swing, do charleston e da dança, Gershwin e Fred Astaire, o Great Gatsby e roupa moderna, mais solta, com os famosos vestidos de cintura descaída e brilho, à mistura com novos cortes de cabelo, para além da art déco.

Mas a maior prosperidade vivida nesses anos 20 em que se procurava recuperar da tristeza de uma guerra, também foi impulsionada por grandes alterações tecnológicas, com a massificação da produção automóvel, a democratização da rádio, a ida mais barata ao cinema, que até passa a ter som, para além do primeiro voo transatlântico de Lindbergh em 1927. Houve outra boa notícia no final dos anos 20 – que hoje tantos nos toca – a descoberta da penicilina, por Alexander Fleming, que tantas vidas salvou desde então.

A década de 1920 também ficou marcada pela Lei Seca, a par da ascenção de gangsters cujo crime organizado ficou associado aos bares speakeasy. Convém não esquecer que a década de 20, em termos económicos, acabou de forma desastrosa, com a terça-feira negra em Wall Street, em 1929, e a Grande Depressão que se seguiu – ainda hoje controversa entre economistas académicos.

Claro que a realidade que estamos a viver em 2020 não é a de 1920. Mas, ao longo da História, já vimos as nossas economias enfrentarem crises diversas e recuperarem. É aí que reside a esperança, na nossa capacidade de irmos resistindo, reinventando e sobrevivendo. Se a década de 20 do século passado começou bem e acabou mal, podemos muito bem tentar acreditar na tal “analogia de trás para a frente”: que a nova década de 20 esteja a começar com uma forte recessão, mas que melhore sucessivamente e nos devolva a alegria de vivermos sem o medo actual de nos pormos em risco uns aos outros. Temos tecnologia nova, temos necessidade de profunda mudança (que implica forte investimento) devido à emergência climática, mas falta-nos começar a década de 20 com uma descoberta na Medicina – desta vez uma vacina, na vez do antibiótico de Fleming.

Até lá, vamos acompanhando aquilo que nos compete: mantendo a actividade económica que influenciamos no melhor nível possível. Da mesma forma que nos preocupámos com a queda homóloga do PIB do 2.º trimestre acima dos 16%, verificamos agora que, em Julho, a queda homóloga das compras com cartão se ficou pelos 8,7% (dados do Banco de Portugal), o que resultou de uma quebra muito pronunciada nas compras com cartões internacionais (a rondar os 60%) e de uma subida ligeira na utilização de cartões nacionais. As compras com cartões nacionais, subiram, até, cerca de 8% entre 10 e 23 de Agosto, por comparação com período homólogo em 2019. Claro que diferentes sectores são afectados de forma assimétrica. Mas é essencial não esquecermos que, para além de coordenação e apoio governamental e da União Europeia, está nas nossas mãos mantermos uma atitude socialmente responsável – no respeito das regras – e combativa, apostando na qualidade daquilo que produzimos e servimos, gerando confiança. Assim se contraria a perplexidade.

Para concluir, nada como fechar a silly season ao som de uma boa playlist de All Swing 20’s Charleston (que encontramos no Spotify, where else, it’s the new Roaring 20s…), como a que ouvi enquanto escrevi esta coluna, enchendo-me de esperança e de ritmo para a nova temporada. Aliás, um charleston bem dançado, com os braços bem movimentados, até lembra a “nova dor de cotovelo”, não aquela que associávamos tradicionalmente ao pior dos nossos instintos, mas a que se deve à nova forma de nos cumprimentarmos ao vivo – como numa dança – tão bem exemplificada na memorável fotografia da presidente da Comissão Europeia com o presidente do Conselho Europeu em dia de acordo sobre o pacote de recuperação.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 174 de Setembro de 2020

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