A pandemia mudou os escritórios para sempre?

Por Nuno Garcia, diretor-geral da GesConsult

Sendo certo que os ambientes onde trabalhamos exercem forte influência sobre aspetos como a nossa motivação, desempenho e até produtividade, a obrigatoriedade do teletrabalho trazida pela pandemia veio levantar questões múltiplas quanto à utilização futura que vamos fazer dos escritórios.

Embora se venha a clarificar em breve, a redefinição do conceito de espaço de trabalho está em curso e a ganhar forma, mesmo enquanto permanecemos em home office. A pandemia veio transformar radicalmente o conceito de “escritório” e são múltiplas as evidências disso mesmo.

Pensemos, por exemplo, nas plantas e layouts. Arquitetos, construtores e gestores de recursos humanos têm hoje uma dualidade inesperada para gerir: por um lado, a necessidade de se assegurar a segurança e o conforto; por outro, a ansiedade natural por convívio e socialização, praticamente inexistentes nos últimos 11 meses. O aumento das áreas dedicadas a zonas sociais, como as copas e os vestiários está, assim, a fazer parte das alterações a que assistimos, acompanhando as orientações genéricas de distanciamento e precaução.

A reorganização das salas, de forma a criar zonas de trabalho mais amplas e desafogadas, é outra das tendências observáveis, a par do aproveitamento das áreas exteriores, mais arejadas – nas instalações onde isso é possível. Nas restantes, a ventilação conquistou uma preponderância que se sabia dever existir, mas que nem sempre constituía uma prioridade nos espaços de trabalho.

O investimento em salas de reuniões equipadas com sistemas para a realização de videochamadas com qualidade é outra das práticas instituídas pela pandemia e que, face às poupanças de tempo e recursos que oferece, deverá vir a manter-se.

Já em termos da forma como nos movimentamos, estão a ganhar forma vários modelos de circulação, que permitem evitar contactos desnecessários e facilitam os fluxos de entrada e saída dos edifícios – algo já pensado, mas para o contexto de exercícios e simulações de emergência.

Além das alterações ao nível dos espaços, também não devem ser esquecidas as adaptações funcionais, ou seja, as ações que anteriormente exigiam manuseamento e que passaram a ser trocadas pelo mínimo contacto possível. A dar resposta a esta tendência estão os sistemas integrados de gestão de acessos (como a abertura de portas com cartão magnético), as opções contactless (como as torneiras com sensor), as soluções de ventilação mais eficientes e, sempre que possível, o recurso à ventilação natural.

Não nos equivoquemos: no futuro, mesmo os que se sentem perfeitamente confortáveis ​​a trabalhar em home office vão querer variar nos espaços onde o fazem e esse argumento será chave para a forma como vamos observar os escritórios. As pessoas, as equipas, as empresas vão continuar a precisar de lugares onde possam reunir-se, construir relações e desenvolver trabalho – mas exigirão, como já se observa, uma abordagem transformada pelas novas circunstâncias.

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