A atual crise na fronteira ucraniana está mais uma vez a pôr em evidência como o governo de Vladimir Putin está a usar a dependência energética da União Europeia para tentar levar a sua avante. No entanto, avisam os especialistas, esta assumida fraqueza estratégica face a Moscovo arrisca-se a parecer uma brincadeira de crianças em comparação com o gigantesco desafio que se avizinha vindo de Pequim. E o retrato do que nos pode esperar, com conta o espanhol El Confidencial, não é bonito.
Um primeiro sinal do que pode vir aí chegou já à Lituânia, esse pequeno estado do norte da Europa com menos de três milhões de habitantes e que se tornou, bem recentemente, alvo de uma campanha de intimidação por parte do governo chinês.
Foi logo depois de Vilnius ter anunciado a abertura de uma embaixada em Taiwan, ilha que há anos mantém uma contenda pública sobre a sua independência com a China. Perante isto, o governo de Xi Jinping não esteve com meias medidas e impôs um bloqueio comercial, pressionando empresas em todo o mundo que até então recorriam a componentes lituanos nos seus produtos.
Perante jogadas deste género, o mais recente relatório do Conselho Europeu das Relações Externas intitulado “The Hidden Costs of Economic Coercion” insiste que a União Europeia precisa mesmo urgentemente de ajustar a forma como se relaciona com Pequim, assumindo de vez que diplomacia e economia deixaram de existir como conceitos separados. Esta é, sublinha-se no documento, a era da geoeconomia.
“Continuamos a separar artificialmente as questões de política externa da política comercial e da concorrência económica. Mas no mundo de hoje estas questões estão profundamente interligadas”, explica Jonathan Hackenbroich, co-autor do estudo, em entrevista ao El Confidencial. “Actualmente, os instrumentos económicos são o principal instrumento da política externa. Quando se trata da Ucrânia, por exemplo, tanto a UE como os EUA estão a discutir formas de sancionar economicamente a Rússia, não como intervir militarmente”.
Mas a ameaça de coerção económica não é propriamente nova – já quando se trata deste tipo de agressão geoeconómica, a China, há anos visto como rival sistémico da UE, é bem mais sofisticada. O exemplo lituano é bem claro: não há nenhuma empresa europeia numa lista oficial de sanções. Recebem simplesmente uma chamada a sugerir que podem perder o acesso ao mercado chinês ou ver os produtos que tenham peças lituanas bloqueados na fronteira.
E este é um padrão, como sinaliza o artigo do El Confidencial, que já vimos em outros momentos. Em março do ano passado, por exemplo, Pequim decidiu punir várias empresas europeias depois de a UE, em cooperação com Washington e Londres, ter imposto sanções a quatro funcionários chineses pelos maus -tratos infligidos à minoria Uighur na região autónoma de Xinjiang. Resultado? Empresas como a H&M ou a Adidas simplesmente desapareceram das aplicações de comércio eletrónico do país. Logo depois, seguiram-se ameaças diversas perante a possibilidade de a Alemanha banir o 5G da tecnológica chinesa Huawei. Parece que o que não faltam são exemplos – ou, como questiona o artigo do diário espanhol: quem disse que a Rússia pode ser o pior inimigo que poderíamos ter?













