“A NATO não está de todo em crise”: Rutte desvaloriza ameaças de Trump sobre a Gronelândia

O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, procurou esta segunda-feira minimizar o impacto das recentes declarações do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma eventual tomada da Gronelândia pela força, garantindo que a Aliança Atlântica “não está de todo” em crise e que o processo de cooperação entre os aliados segue no rumo certo.

Pedro Gonçalves
Janeiro 12, 2026
17:30

O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, procurou esta segunda-feira minimizar o impacto das recentes declarações do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma eventual tomada da Gronelândia pela força, garantindo que a Aliança Atlântica “não está de todo” em crise e que o processo de cooperação entre os aliados segue no rumo certo.

Falando aos jornalistas durante uma visita a Zagreb, Rutte rejeitou a ideia de que as ameaças norte-americanas coloquem em causa a sobrevivência da NATO, poucos dias depois de Trump ter voltado a insistir na possibilidade de os Estados Unidos tomarem controlo da Gronelândia, mesmo que isso implique pôr em risco a integridade da aliança militar transatlântica.

“A NATO não está de todo em crise”, afirmou Rutte, acrescentando que acredita que os aliados estão “realmente a trabalhar na direção certa”.

Na sexta-feira +assada, Donald Trump avisou que os Estados Unidos “podem” ter de escolher entre manter a NATO intacta ou avançar para a apreensão da Gronelândia, numa nova escalada de uma campanha antiga do Presidente norte-americano para garantir o controlo da ilha do Árctico. Trump justificou a posição afirmando que controlar a Gronelândia é “algo que sinto ser psicologicamente necessário”.

A retórica agressiva do Presidente dos Estados Unidos reacendeu receios de uma crise existencial na NATO, na medida em que a possibilidade de um ataque militar contra um Estado-membro colocaria a aliança perante um cenário sem precedentes.

Essas preocupações foram partilhadas pelo comissário europeu da Defesa, Andrius Kubilius, que afirmou esta segunda-feira que qualquer tomada militar da Gronelândia representaria “o fim da NATO” e teria um “impacto muito profundamente negativo” nas relações transatlânticas.

Segurança no Ártico volta ao centro do debate
Donald Trump tem argumentado que a presença crescente de navios russos e chineses nas proximidades da Gronelândia, bem como os recursos naturais da região, justificam a necessidade de os Estados Unidos controlarem o território. No entanto, especialistas e relatórios de serviços de informações têm, em grande medida, desvalorizado essas alegações.

Ainda assim, Mark Rutte reconheceu que existe “o risco de os russos e os chineses se tornarem mais activos” na região. Segundo o secretário-geral, há consenso entre os aliados quanto à importância estratégica do Árctico e da sua segurança. “Todos os aliados concordam sobre a importância do Árctico e da segurança no Árctico”, afirmou, acrescentando que estão em curso discussões sobre “como garantir um seguimento prático” dessas preocupações.

Na semana passada, países da NATO solicitaram formalmente à aliança que analisasse opções para reforçar a segurança no Árctico, incluindo o reposicionamento de meios militares e a realização de mais exercícios militares nas imediações da Gronelândia. O Reino Unido e a Alemanha estarão, segundo relatos, em conversações para enviar tropas para o território autónomo dinamarquês, numa tentativa de aliviar as preocupações de Washington.

Gronelândia quer defesa enquadrada pela NATO
Também esta segunda-feira, o primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, defendeu que o território deve “intensificar os seus esforços para garantir que a defesa da Gronelândia decorre sob a égide da NATO”, sublinhando a importância do enquadramento multilateral da segurança da ilha.

Ao lado de Mark Rutte, o primeiro-ministro croata, Andrej Plenković, recordou que “os aliados têm de se respeitar mutuamente”, incluindo os Estados Unidos, enquanto maior membro da NATO.

Apesar das tensões, Rutte optou por elogiar Donald Trump, sublinhando o papel do Presidente norte-americano na pressão exercida para que os aliados aumentem o investimento em defesa. Segundo o secretário-geral, Trump “está a fazer as coisas certas para a NATO ao incentivar todos a gastar mais para equilibrar este esforço”, numa referência à meta de investimento em defesa de 5% do PIB, acordada no ano passado após forte pressão da Casa Branca.

“Enquanto secretário-geral da NATO, é meu papel garantir que toda a aliança é o mais segura e protegida possível”, afirmou.

Um cenário sem precedentes na história da NATO
A NATO já enfrentou crises graves ao longo da sua história, incluindo a invasão turca de Chipre em 1974, confrontos navais entre o Reino Unido e a Islândia durante as chamadas “guerras do bacalhau” e várias disputas territoriais entre a Grécia e a Turquia no mar Egeu, que atingiram o auge em 1987.

No entanto, um ataque directo de um dos seus membros mais poderosos contra outro aliado seria uma situação totalmente inédita. “Não existe nenhuma disposição no tratado fundador da aliança, de 1949, que preveja um ataque de um aliado da NATO contra outro”, afirmou um diplomata da organização, que falou sob anonimato. Tal cenário significaria, segundo o mesmo responsável, “o fim da aliança”.

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