Com 1,90 metros, Cristiano Van Zeller – o terceiro Cristiano da família- é um real contador de histórias, de que gosta e de que não se cansa. Ou não fosse, o própria, amante de histórias. Por isso partilha sem custos e com ritmo inalterado, que se prolonga por horas. Até percebemos que a hora ia alta e o restaurante tinha que fechar portas…
No almoço com a Executive Digest, nos jardins do Yakuza em Lisboa – é fã de sushi e confidencia pedir sempre, no mínimo, umas 60 peças –, precisou de uma meia hora para contar, de forma sucinta, a história da família desde que os primeiros Van Zeller chegaram a Portugal, no século XVII. Cristiano Van Zeller, um dos grandes fazedores de vinhos e marcas no Douro – e que recentemente fechou acordo entre a sua Quinta Vale D. Maria e a Aveleda –, é como um livro cheio de capítulos e cor.
Desfia datas e nomes sem hesitar, tecendo uma cronologia familiar que se enreda e envolve a própria história do Vinho do Porto. Diz-se um homem de fé e da família, a qual gosta de ter por perto. Também não sabe viver sem amigos nem sonhos. Fomenta encontros e almoços à volta de mesas onde se servem vivências, experiências e provas.
Sabe que irá continuar no mundo do vinho, mesmo depois de ter vendido a sua D. Maria. Para já tem em mãos o desafio que diz ser recuperar a marca Aveleda para um posicionamento superior. Mas não ficará por aqui! «Ininterruptamente, estamos há 400 anos no vinho. Com várias famílias a cruzarem-se.
Desde o meu sétimo avô, Arnaldo João, que terá chegado a Portugal em 1724. A Van Zellers & Co é fundada no séc. XVIII só com Vinho do Porto, apesar de haver registos anteriores. Mas ainda no final do séc. XVIII, e pelo lado Kopke, ficámos com a Quinta de Roriz, o que nos traz a ligação com o Douro. Em 1930, por casamento do meu avô, chega-nos a Quinta de Noval.
O meu avô morreu muito cedo, em 1937, com 33 anos, e quatro filhos. É nessa altura que o meu bisavô recompra a Van Zellers & Co. O meu avô era engenheiro civil, o meu pai também, trabalhava na Hidroeléctrica do Douro e ficou com a responsabilidade de desenvolver o plano de barragens. Passei a minha vida atrás do meu pai.
Vivia praticamente em casa dos meus bisavós, que é hoje a Biblioteca Municipal de Gaia, cujo jardim tinha 2,5 hectares e era um paraíso. Ia com o meu bisavô por ali fora, de manhã atravessava os jardins, batia à porta da tanoaria e ia pelo meio das pipas até ao escritório. Foi uma memória que me ficou para a vida. Sou de 1958 e cresci entre a Foz, onde vivia o meu pai, Gaia e Trancoso, a terra da minha mãe.
As memórias que tenho são no meio do campo, das pipas e dos cães… Sempre tive duas referências na vida, o meu pai e o meu bisavô Luís Vasconcelos Porto. Eu era o bisneto mais velho, o neto mais velho e o filho mais velho. Além disso tinha uma relação muito forte com a minha avó, que era minha madrinha. Mas o meu pai era, e é, a minha grande referência.
Pela figura que era, pela personalidade que tinha, o sentido de humor inexcedível. Faz este ano 40 anos que morreu. Era presente, actuante, educador, amigo, firme, condescendente no sentido de amor infinito, muito inteligente e culto. Sempre fui bom aluno. No quinto ano tive que escolher o curso. Decidi ir para Ciências e Engenharia.
Depois diverti-me muito no 25 de Abril, estive no congresso do CDS no Palácio, cercado. Foi aí que conheci a cor do medo. Durou 15 minutos, quando vi uma multidão violenta e descontrolada com caixas de G3 e munições. Tinha 16 anos e só me acalmei quando um agente da PSP me pôs a mão e me disse “tenha calma que isto está tudo controlado”.
Claro que não estava, mas nunca mais tive medo na vida. O medo é da cor da prudência! Ainda em 75 fui para Espanha, para não fazer o Propedêutico. Estive quatro anos na Universidade de Navarra, em San Sebastian, a fazer Engenharia. Mas o meu pai adoece no início de 79, morre em Agosto e tive que me vir embora. Vim para a Faculdade de Engenharia do Porto, atrasei um ano e meio e passei de Engenharia Industrial para Civil. Começa uma nova aventura.
Primeiro, porque tinha 20 anos, era o mais velho dos primos e irmãos, e era preciso alguém fazer alguma coisa. Os amigos do meu pai, discretamente e sem ninguém saber, ajudaram-nos a aguentar o barco. São coisas que não têm preço. Entretanto, na Quinta de Noval, as relações entre os sócios não correm bem e o meu tio Luís zanga-se com os irmãos em defesa dos sobrinhos “órfãos” e sai da empresa.
Isso precipita uma série de acontecimentos entre os quais a minha entrada na empresa, em 1981, em part-time. Fazia um pouco de tudo, viajava, ia para a sala de provas e continuava a estudar. Sempre tive um bom nariz, nunca fumei e fiz râguebi até há uns meses. Lembro-me de ter seis anos e ter provado pela primeira vez vinho.
Fui à adega, abri a torneira da pipa e pus-me por baixo a beber. Claro que nunca mais bebi até aos 20 anos. Ainda hoje bebo pouco. Provo, gosto muito de provar.
ENTRADA NO VINHO
O meu tio Luís morre em 1982, as relações dos meus tios eram péssimas, o meu tio mais velho tenta ficar com a maioria da empresa e demite-se com toda a administração. Como eu não me demito, acabei por ficar à frente da Quinta de Noval. Tinha 23 anos. O grande desafio era equilibrar a empresa.
As minhas prioridades foram falar com todos os clientes, fazer a vindima e aguentar o barco. No Vinho do Porto somos todos concorrentes, mas quando toca a ajudar estamos sempre todos prontos. Lembro-me que no dia seguinte ao nosso incêndio, em 1981, os presidentes das várias empresas vieram ter connosco e pôr as instalações deles à nossa disposição. O Tim Sandeman veio de propósito de Inglaterra falar com o meu tio. Este espírito de solidariedade é uma coisa que ainda se mantém.
Com a ajuda de um amigo do meu pai, que assumiu a presidência do Conselho de Administração, conseguimos dar a volta à empresa e fizemos um acordo de família, em 1987. Mas, a certa altura, percebemos que a família não se entendia e sugerimos pôr a empresa à venda. No entretanto, decidimos refazer a Van Zellers & Co com a Quinta de Roriz, que volta a juntar-se, comprámos Solar das Bouças, que foi um erro, e tentámos vender à Sogrape, o que não aconteceu. Até que apareceu uma proposta da AXA para comprar.
Começaria aí nova aventura. Cheguei a estar quatro meses sem salário. Era uma questão de tempo. No dia em que decidi ir embora, telefonei ao Jorge Roquette da Quinta do Crasto para irmos jantar. É assim que começa o projecto da Quinta do Crasto, que arranca em Janeiro de 1994 e é hoje um dos grandes sucessos do Douro. Na altura não havia grandes marcas no Douro, nem havia números, não se sabia quanto se vendia. No ano seguinte, os meus amigos do Vallado perguntam-me se não queria fazer a mesma coisa lá, ajudar a construir um projecto, a pensar o produto…
Até que em 1996 há a oportunidade de comprar a Quinta Vale D. Maria. Os Symington tinham arrendado a quinta aos avós da Joana, minha mulher, até ao ano 2003. Mas quando perceberam que podia estar interessado, e ainda antes de eu tomar a iniciativa, vieram ter comigo e disseram-me que no dia em que quisesse me entregavam a quinta.
Consegui fazer o acordo e recebo-a no dia 6 de Setembro, véspera de vindima. Na altura perguntei se podia ficar com as uvas, pagando sem discutir. Ofereceram-me tudo a preço de custo, pagando como pudesse. Deram-me a possibilidade de começar sem ter que esperar. É assim que arranca o Vale D. Maria, mas mantive-me no Crasto até 2000 e no Vallado até 2007.
Pelo meio fui fazer um curso de Economia e Gestão na Universidade Católica do Porto, consegui mais 18 cadeiras de Engenharia e ajudei a montar a Häagen-Dazs em Portugal (é o meu irmão que tem o franchising). Desde o princípio que tinha uma ideia-base do que podia ser o Douro. As quintas são todas diferentes.
O que cada uma pode dar depende da sua dimensão, capacidade financeira, localização e objectivos da empresa. Os projectos são todos muito semelhantes na sua essência, baseados na vinha – ao contrário do Vinho do Porto, que é no comércio –, não no volume, mas na especialização, na localização.
Tinha isso muito claro, mas a única coisa que podia fazer em empresas de terceiros era criar um caminho e uma orientação. Os primeiros anos foram de grande aprendizagem. Mas hoje, quando vou visitar uma vinha, rebolo-me na terra e meto-a na boca para sentir e perceber como é, as vibrações que tem. Eu sei que são maluquices espirituais.
Faço um ritual que ninguém vê, mas em que acredito. Ninguém sabe. Acredito na sensibilidade e na espiritualidade, mas que só vêm com a experiência. Quando se encontra uma rapariga engraçada, antes de avançar para qualquer coisa tem que haver uma química. Com a vinha e a terra é a mesma coisa.
Tenho que saber se onde estou existe essa “borboleta no estômago”. Claro que depois olho com olhos de ver para as vinhas! No vinho, a diferença e a existência de uma grande diversidade é um bem e não um problema. É o essencial para que exista interesse do mercado e dos consumidores, em geral. Basta ver o que aconteceu na Austrália, que começou com um boom há 40 anos com uma série de produtores, depois as marcas foram-se agregando e a certa altura quatro empresas dominavam 95% do mercado.
Em Portugal existem muitos amadores, esta diversidade de produtores são dores de crescimento, mas acho que o problema é a falta de capacidade destes produtores se mostrarem lá fora. Um dos grandes trunfos do Douro foi pensar o Mundo como o vinho do Porto, pensar em Portugal como mais um mercado.
De tal maneira que no Crasto só ao fim de seis anos é que começámos a pensar em vender para Portugal. No primeiro ano que apresentamos os vinhos do Crasto, o nosso maior cliente era Inglaterra, enquanto que no Vallado demorei sete anos a entrar em Inglaterra. Não foi de propósito. O mercado tinha mudado entretanto.
O problema de Portugal é que olha para o mercado português e depois é que exporta. Fui criticado anos a fio por me preocupar em vender 120 garrafas na Lituânia. E então? Para se criar uma marca verdadeiramente internacional é preciso estar espalhada no Mundo. Não olho para os EUA, como os EUA, olho para cada estado e os seus posicionamentos distintos. Entrei com a Quinta Vale D. Maria ao mesmo tempo em Inglaterra, Portugal, França, Holanda, EUA, Brasil. Em todos os projectos começa-se muito pequeno e vai-se crescendo e gerindo a procura e não a oferta.
LEGADO PARA OS FILHOS
Tinha uma secreta esperança que um dos meus filhos quisesse dar continuidade. A todos tentei incutir o gosto pelo campo, o Douro, o vinho, mas isto faz-se mais pelo exemplo. Cada um tem de ser livre de fazer o que quer. De tal maneira que quando a Francisca terminou o Colégio inglês, antes de seguir para a universidade não sabia o que seguir e eu disse-lhe que a escolha devia ser dela.
Nunca forcei, mas claro que gostei imenso quando a Francisca percebeu que gostava de fazer isto. Os filhos não se lembram da quantidade de tempo que passámos com eles, mas de momentos específicos. E não ficam com a noção se é muito ou pouco tempo, mas se for marcante fica a noção que foi muito.
Tenho a sensação que passei a vida toda com o meu pai. O meu pai saía de manhã, eu não almoçava em casa e chegava à noite, aos fins-de-semana um ía para um lado, outro para outro, mas a partilha de momentos é a única forma de conseguirmos transmitir alguma coisa. Pelo menos só o suficiente para eles pensarem por eles.
FASE AVELEDA
Quando ía ao Porto perguntava aos meus primos da Aveleda “Dão-me de almoço?”. Um dia, tinha acabado de fazer a vindima e perguntei-lhes se não queriam pegar no projecto. Diziam que iam pensar e andávamos nisto! Portanto nunca foi nada que não estivesse nos meus horizontes, fosse com a Sogrape ou com a Aveleda.
Em 1999-2000 voltámos a falar do assunto, mas por várias razões não aconteceu. Foi nessa altura que fiz um acordo com a José Maria da Fonseca. Em 2005 eles seguiram o seu caminho e nós o nosso. Mas tinha noção desde o princípio que não tinha arcaboiço financeiro para aguentar o barco sozinho.
De tal maneira que, em 2011, há quatro amigos que me vêm ajudar, Paulo Azevedo, António Lobo Xavier, Carlos Moreira da Silva e o Ângelo Paupério. Deram-me apoio que foi fundamental e deu a volta à empresa. No vinho é preciso estar sempre a investir, por mais valor que se vá criando, há momentos que demoram a criar valor.
Só para termos uma ideia, em 2010 o preço médio dos vinhos Vale D. Maria Excellers era 12,5 euros e em 2015 passou para 24 euros. O que permitiu uma rentabilidade enorme. No Natal de 2006, recebo a empresa Van Zellers & Co, que a AXA tinha secado e deixado nas mãos do meu primo João [Van Zeller], dono da Quinta de Roriz.
O João ofereceu-me a empresa no Natal. Recomecei-a pela segunda vez na vida. É uma mistura de sentimentos. O problema, quando se constrói uma coisa nos vinhos, é que a terra transforma-se na nossa casa. Não é um negócio por si, há negócios em que podemos ser mais desprendidos. Isto tem muita paixão. Quando entro nas coisas é com a chave da porta.
Não gosto de estar preso a sítios que não pertenço. Ainda não fechei o ciclo. Na Aveleda, o meu desafio é mais global, é fazer a integração de uma marca e a transformação de uma empresa que estava muito dirigida para o mass market e tem de criar valor – isso acontece na Bairrada e no Algarve, no Douro e na própria marca Quinta da Aveleda.
Tenho muito orgulho em fazer parte desta fase e ainda tenho muito contributo a dar. Estou em simultâneo a refazer a Van Zeller & Co e a reposicionar em valor os vinhos de mesa e do Porto. O Vinho do Porto passou de 93 milhões de litros em 2005 para 72 milhões de litros em 2018. Um dos problemas do Vinho do Porto é a dimensão.
A acumulação de grandes marcas em poucas empresas mata a diversidade e o grande desafio para se manter à tona é sustentar a sua rentabilidade e a sua sobrevivência a muito longo prazo. E há uma questão interna, uma das grandes fortunas do Vinho do Porto e de algumas marcas é transmitirem a memória e essa memória está nas mãos de poucas pessoas.
Tenho a obrigação de manter a chama dessa memória. Outro grande desafio é a transformação da região. Quando fizemos isto do projecto do Douro havia três pilares: uma obrigação, uma necessidade e um desafio. Uma obrigação porque na nossa geração éramos muito menos do que as gerações anteriores, mas a mais bem preparada na altura, que tinha conseguido perceber o passado e tinha a visão claro do futuro. Tínhamos uma obrigação perante a região de usar esse conhecimento para a transformar.
Depois, uma necessidade. O Douro viveu de reservas que estão a esgotar, além de que há também um problema de áreas, porque produz muito mais do que aquilo de que necessita. O meu desafio principal, para além da Aveleda, é também de ordem cívica. Sou presidente da Assembleia Geral da Casa do Douro. Sou reivindicativo.
Os Douro Boys já existiam de forma informal, somos todos amigos e familiares. Juntámo-nos para promoção do Douro e das nossas marcas. Portugal só entrou no radar dos Douro Boys oito ou dez anos a seguir a organizarmo-nos para fazer algo mais profissional.
HOMEM DE FÉ
A solidão e o sofrimento assusta-me muito. Gosto de estar em casa, rodeado com a família e os amigos. Mas não tenho de estar na mesma sala do que eles, só preciso que eles estejam em casa. Sou pai galinha e com os amigos também gosto de tê-los por perto. Viajava cinco meses por ano e não há coisa mais triste do que comer sozinho.
Há momentos que me apetece ver televisão, a ver um jogo de futebol ou rugby sozinho. Primeiro a família e uma mesa cheia. Quando, às vezes, há amizades que se quebram ou sofrem soluços não sinto rancor, sinto pena. No telemóvel não tenho a fotografia da família mas a do cão e das perdizes. A família está no coração.
Em termos de vinhos, se tivesse que escolher, diria que gosto do perfil da Borgonha, tintos e brancos, da suavidade, da cremosidade. Sou muito eclético, gosto de variar e não repetir. Ninguém faz um vinho sem eu dizer o que se faz. Mas a partir do momento em que as equipas estão formadas, já não acompanho. Isto de dizer que uma pessoa faz um vinho sozinho não existe.
É a complexidade dos narizes que chegam a alguns resultados porque sozinho só dá asneira e só se consegue mudar um ano depois. É como um petroleiro. Foi a minha primeira lição na Quinta de Noval. Nunca há só uma pessoa na sala de prova, na decisão final estão sempre várias. O nariz é uma coisa muito sensível. A certeza não existe.
Sou um homem de fé, acredito em muita coisa, mas tenho imensas dúvidas. Não me importo nada de mudar de opinião se houver razão para isso. Não sou a favor da multiculturalidade, acredito que todas as pessoas têm o mesmo valor.













