A Indústria farmacêutica serve para alguma coisa?

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Fizeram-me esta pergunta na conferência da Executive Digest há alguns dias atrás. Fiquei surpreendido mas lá respondi. Importa referir aqui o meu conflito de interesses, pois trabalho nesta área e sou dos 10.000 trabalhadores empregados pelas empresas farmacêuticas.

A resposta á pergunta foi e é sim! Basta dar o exemplo da vacina do Covid19 que permitiu que o mundo voltasse à normalidade. Mas aparte esta verdade de “la palisse”, importa avaliar como pode a indústria farmacêutica contribuir em 3 dimensões: a humana, a social e a económica. E quando conhecemos este contributo, percebemos que o medicamento não é uma “commodity”, mas um bem de valor acrescentado que incorpora conhecimento e investimentos elevadíssimos. Portanto as empresas (reitero “empresas”) da Indústria farmacêutica, têm de ganhar dinheiro para continuar a investir e acrescentar valor, bem como remunerar os seus accionistas. Obviamente todas as conquistas atingidas foram um esforço conjunto de 3 variáveis, não se tratando apenas do medicamento. O conhecimento elevado do profissionais de saúde e melhores meios de diagnóstico também contribuem muito para as conquistas que abaixo refiro.

Ao nível do impacto humano, ou seja em que medida é que os medicamentos melhoram e salvam as vidas dos doentes em Portugal? A Apifarma e a EY estudaram este aspecto há alguns ano atrás e a concluíram que os medicamentos acrescentaram 2 milhões de anos de vida saudável aos Portugueses desde 1990, e só 180 mil em 2016.  Foram evitadas mais de 110 mil mortes e a esperança de vida aumentou em até 10 anos desde 1990 (ou seja em lugar de morrermos aos 83 anos em média, morreríamos aos 73). E obviamente melhorou substancialmente a qualidade de vida para doentes e cuidadores.

Ao nível da sociedade, como é que a Indústria farmacêutica e os medicamentos a beneficiaram?  Pelo facto óbvio dos medicamentos adiarem o progresso das doenças e aliviar os sintomas, permitiu aos doentes manterem-se activos, evitando dias de baixa e adiando a reforma precoce. Só por isto, foram acrescentados 280 milhões de euros de rendimento anual adicional para as famílias devido ao aumento de produtividade usando os tratamentos mais recentes. Mas não foi só acrescentar valor, mas também poupar custos. O medicamento poupou mais de 560 milhões de euros anuais no sistema de saúde resultantes de menores taxas de hospitalização e prevenção de outros custos directos ( permitiria suportar os custos anuais do Hospital Santa Maria e Pulido Valente). Um caso mais prático e óbvio com o VIH, pois as terapias inovadoras converteram o VIH de sentença de morte numa doença crónica tratável, assim como a hepatite (por exemplo).

Finalmente ao nível económico, como contribui a Indústria farmacêutica para a economia Portuguesa? O valor criado anualmente é de 4,3 mil milhões de euros de criação de valor para o PIB, incluindo impactos directos, indirectos e induzidos. Ao nível do emprego, são cerca de 10 mil pessoas a trabalharem directamente nas empresas farmacêuticas e cerca de 100 mil empregos totais criados na economia global pela indústria farmacêutica ao longo da cadeia de valor. Mas não só, contribui para as exportações Portuguesas em 1,38 mil milhões de euros em 2020, sendo uma das indústrias mais exportadoras.  Investe 91 milhões de euros de investimento em I&D que representa 5,8% do total investido pelas empresas em 2019 (15,4% das vendas líquidas das farmacêuticas). A indústria farmacêutica concentra atividades fortemente intensivas em tecnologia, que lhe dão uma natureza absolutamente estratégica no contexto das economias que se querem avançadas: é a indústria com maior intensidade em I&D e em emprego qualificado, com um dos maiores valores acrescentados bruto por trabalhador da economia Portuguesa.

Em suma, espero ter esclarecido com dados e factos para que serviu a Industria farmacêutica em Portugal. Mas se atendermos que este sector económico está subaproveitado em Portugal, a minha opinião é de que poderíamos duplicar em apenas alguns anos, os impactos económicos e sociais do medicamento na sociedade Portuguesa.

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