A importância da integração dos princípios ESG nas políticas de compliance das empresas

Opinião de André Alfar Rodrigues, Dower Law Firm 

Executive Digest

Por André Alfar Rodrigues, Dower Law Firm 

As instituições europeias estão a centrar-se cada vez mais na sustentabilidade, a fim de cumprirem o Pacto Ecológico e tornarem a Europa o primeiro continente do mundo com impacto neutro no clima. Dada a atenção crescente a vários níveis e aos desafios únicos para as instituições financeiras dos riscos relacionados com ESG, existe uma necessidade premente da função de compliance (re)definir o seu papel, com o intuito de garantir a conformidade com a regulamentação ESG e gerir eficazmente os riscos ESG.

A existência de riscos ESG exige que as autoridades de supervisão atuem com maior acutilância. Salientamos os principais desafios: i) as instituições financeiras terão de medir e monitorizar o progresso das iniciativas ESG relacionadas com a conformidade. As empresas devem ter uma forma de acompanhar os seus progressos e garantir que as iniciativas estão em conformidade com quaisquer normas ou regulamentos aplicáveis; ii) a transparência em matéria ESG é uma parte integrante do investimento responsável e da sustentabilidade empresarial, mas é difícil de cumprir, visto que os conceitos de ESG ainda não estão concretamente definidos e requerem uma abordagem cuidada, uma vez que estamos a medir e a monitorizar dados não financeiros. Por exemplo, um dos riscos é o facto de a desinformação ou as técnicas de marketing poderem apresentar um produto financeiro como mais responsável do ponto de vista ambiental do que é, o que pode permitir casos de “greenwashing”; iii) as empresas devem ter em conta os interesses dos acionistas, bem como os dos clientes, trabalhadores, parceiros comerciais e outras partes interessadas, de forma a garantir que as iniciativas são bem sucedidas e satisfazem as expectativas de todas as partes interessadas envolvidas; iv) devido à complexidade e densificação do acervo legislativo, é muito difícil não só acompanhar a evolução do panorama em matéria de ESG, mas também determinar o impacto na função de conformidade e na organização no seu conjunto. As funções de conformidade devem, portanto, estar cientes das várias leis e regulamentos relacionados com as atividades ESG, bem como dos potenciais riscos financeiros, ambientais e de reputação associados ao não cumprimento.

No âmbito de um processo de avaliação contínua dos riscos, a atenção deve centrar-se na análise do risco de integridade sistémica. Aqui pode ser construída uma base para incorporar os riscos ESG no quadro de conformidade através do desenvolvimento de cenários e da identificação dos riscos ESG e das medidas de atenuação. Para assumir o controlo, o compliance deve, subsequentemente, fornecer orientações à primeira linha de defesa, a fim de contribuir para uma sólida compreensão destes riscos numa organização.

A rápida evolução do panorama regulamentar também exige que o departamento de compliance identifique os principais processos e intervenientes que podem ser afetados pela alteração das expetativas dos reguladores e das autoridades de supervisão. A identificação atempada pode ajudar o departamento de compliance a elaborar planos para garantir que os resultados não sejam afetados negativamente.

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A natureza única dos riscos ESG e o ritmo acelerado a que as mudanças evoluem permitem que a função de compliance se posicione como um consultor estratégico mais pró-ativo junto do órgão de administração. Cabe-lhe contribuir para solidificar as definições dos próprios fatores ESG, o que, por sua vez, ajuda a identificar lacunas na apropriação das responsabilidades, a inclusão de partes interessadas e as capacidades necessárias na empresa para gerir os riscos associados a ESG.

Quando uma estratégia ESG é definida de forma correta, pode também ter um efeito positivo no recrutamento e retenção de talentos, para além de permitir uma maior inovação e diferenciação da marca, isto para além dos efeitos positivos no desempenho financeiro da empresa. É também essencial criar-se uma cultura de responsabilidade e abertura em torno das questões ESG e garantir que a estratégia ESG da empresa seja regularmente revista e atualizada.

Com isto salienta-se: o compliance deve ser um meio, e não um fim necessário para a concretização dos fatores ESG.

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