A atenção dos mercados esta semana voltou a centrar-se no conflito no Médio Oriente, depois da breve euforia bolsista provocada pela entrada em bolsa da SpaceX na semana passada. No geral, as bolsas têm-se mantido relativamente otimistas ao longo dos últimos dias, com os investidores a aguardar com expectativa a sexta-feira, dia em que está prevista a assinatura de um acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irão.
Neste contexto, Giordano Lombardo, fundador, CEO e Co-CIO da Plenisfer Investments, parte da Generali Investments, analisa o novo enquadramento dos mercados e alerta para mudanças estruturais no panorama de investimento global, defendendo que o atual momento poderá marcar uma redefinição das prioridades económicas e financeiras.
Segundo o responsável, a reação dos mercados ao conflito no Médio Oriente pode estar a ser “enganadora”, levantando a questão de os investidores estarem a subestimar a profundidade das transformações em curso na ordem económica mundial.
Defesa deixa de ser um setor cíclico
Para Giordano Lombardo, a função dos gestores de ativos não passa por antecipar desfechos geopolíticos, mas por preparar carteiras para diferentes cenários. Independentemente da evolução do conflito, defende, há uma realidade nova: “o status quo foi abalado”.
Na sua análise, capital que anteriormente era canalizado para projetos de luxo, iniciativas tecnológicas especulativas ou consumo não essencial poderá estar a ser redirecionado para prioridades estratégicas como segurança energética, resiliência das cadeias de abastecimento e defesa nacional.
Durante décadas, recorda, a defesa foi encarada como um setor cíclico, beneficiando em momentos de tensão geopolítica e perdendo relevância quando o risco diminuía. No entanto, o gestor considera que o atual contexto não corresponde a um ciclo tradicional de rearmamento, mas sim a uma reconfiguração estrutural da despesa pública e privada em torno da segurança física e digital.
Essa transformação, sublinha, reflete-se também na natureza dos sistemas de defesa modernos, cada vez mais dependentes de software, sensores, inteligência artificial e sistemas integrados de informação, com uma crescente importância do fluxo de receitas recorrentes associado a infraestruturas digitais, cibersegurança e resiliência operacional.
Os governos, acrescenta, estão a institucionalizar esta mudança, com a NATO a alargar as suas metas para lá da despesa militar tradicional, incluindo segurança digital, proteção de infraestruturas críticas e inovação. A defesa, conclui, está a tornar-se uma estrutura de custo permanente.
Risco de estagflação regressa ao radar
No plano macroeconómico, Giordano Lombardo alerta ainda para o reforço de um risco já identificado pelos mercados: a inflação. Segundo o gestor, a guerra veio amplificar essa tendência.
Entre os fatores inflacionistas aponta os choques energéticos, que funcionam como um “imposto global”, a manutenção de tarifas comerciais elevadas, restrições à imigração que pressionam os mercados laborais e políticas fiscais expansionistas nos Estados Unidos, Europa e China. Em simultâneo, a crescente procura de matérias-primas, energia e capacidade industrial, associada às prioridades de segurança, poderá reforçar pressões sobre os preços.
Em sentido contrário, a inteligência artificial poderá aumentar a produtividade e exercer pressão deflacionista, criando forças opostas que dificultam a tarefa dos bancos centrais.
O cenário de risco, conclui, é o de uma combinação de crescimento mais lento com inflação persistente — um contexto de estagflação — no qual as estratégias tradicionais de diversificação poderão perder eficácia, lembrando que, como ficou evidente em 2022, ações e obrigações podem desvalorizar em simultâneo.



