O crescimento acelerado da inteligência artificial está a criar um novo problema ambiental: a quantidade de água necessária para arrefecer os centros de dados que suportam esta tecnologia. À medida que empresas como a Nvidia, Microsoft, Amazon Web Services (AWS) e Meta investem milhares de milhões de dólares na expansão da infraestrutura necessária para alimentar a IA, aumenta também a preocupação com o consumo de recursos naturais, sobretudo nos Estados Unidos, onde comunidades locais e organizações têm contestado a instalação de grandes centros de dados devido à pressão que exercem sobre a água e a eletricidade.
Os centros de dados são enormes instalações repletas de servidores que asseguram o funcionamento de serviços digitais, desde a internet e plataformas na nuvem até aos sistemas de inteligência artificial. O problema é que estes equipamentos produzem grandes quantidades de calor e precisam de sistemas de arrefecimento permanentes para continuarem a funcionar de forma segura. Em determinadas instalações, esses sistemas podem consumir volumes significativos de água.
Segundo estimativas da consultora Rystad Energy, os centros de dados em todo o mundo utilizaram 222 mil milhões de litros de água em 2025 apenas para arrefecimento, o equivalente a cerca de 59 mil milhões de galões. Sem medidas destinadas a limitar esse consumo, a quantidade poderá quase triplicar até 2030, atingindo 644 mil milhões de litros por ano.
A Rystad Energy estima, contudo, que a adoção de medidas destinadas a reduzir o consumo de água poderá impedir que o aumento atinja essa dimensão, mantendo o crescimento abaixo dos 100%. A pressão sobre as empresas tecnológicas é, por isso, cada vez maior: encontrar formas de arrefecer equipamentos mais potentes sem aumentar proporcionalmente a utilização de água.
Nvidia aposta em arrefecimento de circuito fechado
A Nvidia, um dos principais fabricantes mundiais de chips utilizados em sistemas de inteligência artificial, afirma ter encontrado uma possível resposta através de uma nova abordagem ao desenho e gestão dos centros de dados. Num relatório publicado em junho, a empresa afirmou que o seu mais recente sistema, denominado DSX, poderá reduzir quase totalmente o consumo de água em algumas instalações.
A tecnologia recorre a sistemas de arrefecimento de circuito fechado, nos quais um líquido circula diretamente pelos servidores e tão próximo quanto possível dos chips. Estes componentes podem atingir temperaturas superiores a 80 graus Celsius, o que torna o controlo térmico um dos desafios fundamentais para os centros de dados concebidos para cargas de trabalho de inteligência artificial.
Num sistema de circuito fechado, o líquido utilizado no arrefecimento não precisa de ser constantemente substituído. Depois de absorver o calor dos equipamentos, é arrefecido e volta a circular pelo sistema.
A Nvidia adotou ainda uma estratégia pouco habitual para diminuir a necessidade de utilizar arrefecimento adicional. O líquido entra nos servidores a uma temperatura de cerca de 45 graus Celsius, significativamente acima dos cerca de 32 graus Celsius utilizados pela maioria dos restantes sistemas de circuito fechado em 2024, segundo dados do Uptime Institute, entidade que certifica centros de dados.
A vantagem é que, ao aceitar temperaturas de entrada mais elevadas, a Nvidia consegue reduzir a necessidade de utilizar arrefecimento por ar frio durante todo o ano. Em condições normais, simples ventiladores podem ser suficientes para retirar o calor do sistema.
“Ventoinhas simples a fazer circular o ar” são muitas vezes suficientes, explicou Josh Parker, responsável pela sustentabilidade da Nvidia, embora admita que seja necessário combinar diferentes tecnologias em determinadas situações.
Em regiões com temperaturas particularmente elevadas ou durante períodos de calor extremo, os centros de dados poderão continuar a precisar de arrefecimento por ar refrigerado ou de sistemas de arrefecimento evaporativo.
Poupar água pode significar gastar mais eletricidade
A redução do consumo de água não é, contudo, uma solução simples. Existe uma relação direta entre a quantidade de água utilizada para controlar a temperatura de um centro de dados e a energia necessária para executar esse processo.
“Existe uma relação bastante direta entre a quantidade de água utilizada e a quantidade de energia utilizada” para controlar as temperaturas, explicou Andy Masley, investigador independente que acompanha a evolução da inteligência artificial e dos centros de dados.
Mesmo num sistema fechado, o líquido que circula pelas tubagens tem de ser arrefecido depois de retirar calor aos servidores. Uma das formas de o fazer passa por utilizar ar, o que aumenta a necessidade de eletricidade.
A opção por reduzir a utilização de água pode, portanto, transferir parte da pressão ambiental para o consumo energético. O desafio para as empresas passa por encontrar um equilíbrio entre água, eletricidade, custos operacionais e capacidade de processamento.
Este problema torna-se especialmente relevante à medida que os centros de dados destinados à inteligência artificial crescem em dimensão e potência. Os chips utilizados para treinar e executar modelos de IA exigem mais energia e produzem mais calor do que muitos dos sistemas informáticos tradicionais, aumentando a importância dos mecanismos de arrefecimento.
Empresas dizem estar a recorrer a sistemas sem perda líquida de água
A Nvidia não é a única empresa tecnológica a apostar em sistemas de circuito fechado. A Microsoft, a Amazon Web Services e a Meta disseram à AFP que também utilizam esta tecnologia e que os sistemas em causa não provocam uma perda líquida de água.
Apesar dos avanços na eficiência, os números absolutos mostram que o aumento da capacidade dos centros de dados continua a exercer pressão sobre os recursos hídricos. Microsoft e AWS utilizaram mais água no período entre 2022 e 2025, à medida que expandiram as respetivas operações de centros de dados.
Os indicadores de eficiência melhoraram, contudo, de forma significativa. Segundo os mais recentes relatórios de sustentabilidade das empresas, a eficiência no uso da água melhorou 25% na Microsoft e 37% na AWS.
A comparação entre empresas deve, ainda assim, ser feita com cautela. Não existe atualmente um padrão único para a forma como as empresas reportam os seus indicadores ambientais, sociais e de governação, o que dificulta a comparação direta dos números divulgados.
Centros de dados antigos também representam um desafio
Outro obstáculo está relacionado com a modernização das instalações existentes. A instalação de sistemas de arrefecimento mais eficientes em centros de dados antigos pode implicar custos elevados, tornando a substituição ou adaptação dos equipamentos uma decisão complexa para os operadores.
Minh K. Le, responsável pela investigação sobre centros de dados e hidrogénio na Rystad Energy, salienta, contudo, que as instalações mais antigas são, em geral, menores e menos potentes do que os gigantescos centros de dados atualmente em construção. Por essa razão, também necessitam de uma capacidade de arrefecimento inferior.
O problema assume uma escala diferente nas novas instalações concebidas especificamente para inteligência artificial, onde a concentração de servidores e a capacidade de processamento são muito superiores.
À medida que a procura por IA cresce, as empresas tecnológicas estão a construir infraestruturas cada vez maiores para suportar os modelos e serviços. Essa expansão coloca uma pressão crescente não apenas sobre o consumo de água, mas também sobre a rede elétrica e sobre os recursos necessários para fabricar os próprios equipamentos.
A água usada pelos centros de dados é apenas uma parte do problema
O impacto hídrico dos centros de dados não termina na água utilizada diretamente para arrefecer os servidores. Existe também um consumo indireto associado à produção da eletricidade necessária para alimentar as instalações e ao fabrico dos chips, servidores e restantes componentes.
Nos Estados Unidos, esta utilização indireta de água pode atingir o dobro da quantidade consumida diretamente pelos próprios centros de dados, de acordo com os dados apresentados no relatório.
Isto significa que avaliar o verdadeiro impacto da expansão da inteligência artificial exige olhar para toda a cadeia de produção e fornecimento. Uma instalação pode reduzir significativamente a água utilizada no seu sistema de arrefecimento e, ainda assim, manter uma pegada hídrica relevante através da eletricidade que consome e dos componentes que utiliza.
Pressão pública aumenta nos Estados Unidos
A discussão sobre o consumo de água dos centros de dados está a ganhar força nos Estados Unidos, onde a expansão da infraestrutura de inteligência artificial tem provocado oposição em algumas comunidades. A preocupação está relacionada sobretudo com a utilização de água em regiões onde este recurso já é escasso ou onde existe competição entre o consumo industrial, agrícola e doméstico.
Para Shaolei Ren, professor de engenharia na Universidade da Califórnia, em Riverside, existe ainda uma questão económica que influencia as decisões das empresas. “Como a água é geralmente muito mais barata do que a eletricidade”, explica, as empresas têm menos incentivos financeiros para reduzir o consumo de água apenas por razões de custo.
Ainda assim, Ren considera que existem incentivos para diminuir a utilização deste recurso, sobretudo devido à crescente contestação pública à construção de centros de dados nos Estados Unidos. Neste caso, a pressão reputacional e as relações com as comunidades locais podem pesar tanto ou mais do que a poupança financeira direta.
SpaceX entra na discussão sobre sustentabilidade
A expansão do setor também colocou a SpaceX no centro da discussão. A empresa de Elon Musk tornou-se um operador relevante de centros de dados depois da aquisição da sua empresa de inteligência artificial, xAI.
Ao contrário de algumas das principais empresas tecnológicas do setor, a SpaceX nunca publicou um relatório ESG, ou seja, um relatório dedicado ao desempenho ambiental, social e de governação da empresa.
Em junho, a agência de notação MSCI atribuiu à SpaceX a sua classificação ESG mais baixa.
A ausência de dados comparáveis torna ainda mais difícil avaliar o impacto ambiental de algumas das empresas que estão a investir fortemente em inteligência artificial e na infraestrutura necessária para suportar o seu crescimento.
O desafio passa por reduzir água sem agravar o consumo energético
A indústria tecnológica enfrenta, assim, um dilema que deverá ganhar importância nos próximos anos. Os sistemas de arrefecimento de circuito fechado podem reduzir drasticamente a quantidade de água perdida durante o funcionamento dos centros de dados, mas não eliminam necessariamente as necessidades energéticas associadas ao controlo da temperatura.
A Nvidia afirma que o seu sistema DSX poderá aproximar algumas instalações de um consumo de água praticamente nulo. A concretização dessa promessa dependerá, contudo, da capacidade de aplicar a tecnologia em diferentes condições climáticas e em centros de dados cada vez mais exigentes.
Ao mesmo tempo, empresas como Microsoft e AWS mostram que é possível melhorar substancialmente a eficiência hídrica mesmo enquanto aumentam a dimensão das suas operações. O problema é que ganhos percentuais de eficiência podem coexistir com um aumento do consumo total quando a expansão da infraestrutura ocorre a um ritmo muito superior.
A questão torna-se particularmente urgente perante as previsões de crescimento da inteligência artificial. Se o consumo mundial de água para arrefecimento dos centros de dados passar de 222 mil milhões de litros em 2025 para perto de 644 mil milhões em 2030 sem medidas adicionais, a pressão sobre os recursos hídricos poderá aumentar significativamente.
Para as gigantes tecnológicas, a resposta passa por desenvolver sistemas que utilizem menos água, mas também por encontrar formas de limitar o consumo energético associado ao arrefecimento. Para as comunidades onde estas instalações são construídas, a questão é mais ampla: saber se o crescimento da inteligência artificial pode ser compatível com a disponibilidade de água e eletricidade necessária para sustentar essa expansão.














