A guerra está a virar? Ucrânia ganha terreno, Rússia perde fôlego e analistas falam em “ponto de inflexão”

O simbolismo dessa pressão foi visível a 9 de maio, durante a parada do Dia da Vitória em Moscovo

Francisco Laranjeira

Pela primeira vez desde o início da invasão russa em larga escala, em 2022, a iniciativa no campo de batalha parece estar a deslocar-se a favor da Ucrânia.

A avaliação é feita por analistas citados pelo ‘The Economist’ e recuperada pelo ‘Kyiv Post’, num momento em que Moscovo enfrenta dificuldades crescentes na frente, perdas elevadas e ataques ucranianos cada vez mais eficazes contra alvos situados muito para lá das linhas de combate.

O simbolismo dessa pressão foi visível a 9 de maio, durante a parada do Dia da Vitória em Moscovo.

Ao contrário de anos anteriores, o desfile russo decorreu sem grande presença de equipamento militar pesado, num sinal interpretado como reflexo do desgaste da capacidade militar russa.

Ofensiva russa da primavera falha objetivos

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No terreno, a esperada ofensiva russa da primavera ficou aquém das expectativas.

Em abril, as forças russas registaram uma perda territorial líquida pela primeira vez desde agosto de 2024, quando a Ucrânia lançou operações na região russa de Kursk.

Com base em estimativas assentes em dados do Institute for the Study of War, Moscovo terá perdido o controlo de cerca de 113 quilómetros quadrados no último mês.

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Os analistas atribuem estes ganhos ucranianos a uma combinação de contra-ataques localizados, ataques de média distância mais precisos e perturbações nas comunicações e na logística russas.

“De forma geral, parece um ponto de inflexão na guerra”, afirmou Lawrence Freedman, professor emérito do King’s College London, ao ‘The Economist’.

O especialista avisou, porém, que novos fracassos russos poderão provocar colapsos mais amplos em alguns setores da frente.

Rússia perde cerca de 35 mil militares por mês

O desgaste humano continua a ser um dos maiores problemas de Moscovo.

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As estimativas citadas apontam para perdas russas de cerca de 35 mil militares por mês, um ritmo superior à capacidade de recrutamento.

Desde o início da invasão em 2022, as baixas russas, entre mortos e feridos, estarão próximas de 1,4 milhões, de acordo com estimativas ucranianas.

Outro sinal preocupante para Moscovo é a deterioração da relação entre mortos e feridos.

Autoridades ucranianas, incluindo o presidente Volodymyr Zelensky, têm sugerido que as forças russas poderão estar agora a perder quase dois soldados mortos por cada ferido, uma proporção muito mais desfavorável do que em fases anteriores da guerra.

Drones FPV estão a transformar o campo de batalha

Analistas militares associam esta evolução ao peso crescente dos drones de visão em primeira pessoa, conhecidos como FPV.

Estes drones já poderão ser responsáveis por até 80% das baixas no campo de batalha.

Muitos são guiados por cabos de fibra ótica e reforçados com inteligência artificial, o que os torna mais difíceis de detetar e mais eficazes contra tropas, posições avançadas e operações de evacuação.

“Eles simplesmente deixam os feridos no campo de batalha”, afirmou Seth Jones, do Center for Strategic and International Studies, ao ‘The Economist’.

A guerra de drones está também a alterar a retaguarda imediata.

Uma “zona de morte” que pode estender-se até 20 quilómetros está a dificultar a logística russa, limitando os movimentos de colunas militares e complicando o reabastecimento das unidades em avanço.

Ucrânia ataca cada vez mais longe dentro da Rússia

Ao mesmo tempo, Kiev está a alargar a sua capacidade de ataque contra alvos em território russo.

Drones de médio alcance, capazes de atingir infraestruturas entre 50 e 300 quilómetros, e sistemas de longo alcance, com alcance até 2.000 quilómetros, têm sido usados contra instalações petrolíferas, aeródromos e centros militares.

Em março, a Ucrânia terá ultrapassado a Rússia no número de ataques com drones de longo alcance.

Estas operações colocam até 70% da população russa dentro de potencial alcance, acrescentando pressão psicológica aos danos económicos.

Os ataques contra infraestruturas energéticas já terão obrigado a cortes temporários de produção de até 400 mil barris por dia.

Zelensky afirmou recentemente que estes ataques custaram a Moscovo 7 mil milhões de dólares, cerca de 6,5 mil milhões de euros, em receitas petrolíferas perdidas este ano.

Moscovo ainda resiste, mas acumula sinais de desgaste

Apesar dos reveses, a dimensão militar, territorial e económica da Rússia continua a dar a Moscovo capacidade para prolongar a guerra.

Mas os sinais de pressão acumulam-se.

A defesa aérea russa está cada vez mais sobrecarregada, abrindo falhas na proteção de infraestruturas críticas.

“A realidade é que estão a ter dificuldades na frente e pouca coisa lhes está a correr bem”, afirmou Lawrence Freedman.

A questão decisiva será perceber se esta tendência se mantém nos próximos meses.

Muito dependerá da capacidade da Rússia para se adaptar à vantagem ucraniana nos drones ou para lançar uma nova ofensiva com impacto real.

“Se estiver a fazer um briefing a Putin, o cenário é bastante sombrio”

Para já, segundo a análise citada pelo ‘Kyiv Post’, a trajetória da guerra sugere que Kiev está a ganhar vantagem.

“É difícil ver como as coisas podem melhorar para a Rússia. Se estiver a fazer um briefing a Putin, o cenário é bastante sombrio”, afirmou Seth Jones.

A mudança não significa que a guerra esteja perto de terminar, nem que a Rússia tenha perdido capacidade ofensiva.

Mas indica que Moscovo enfrenta uma fase particularmente difícil, marcada por perdas humanas elevadas, menor capacidade de avanço e ataques ucranianos cada vez mais profundos.

Putin fala em fim da guerra, mas mantém exigências

A 9 de maio, Vladimir Putin afirmou que a guerra na Ucrânia está “a caminhar para o fim” e mostrou abertura a conversações com a Europa.

A declaração marcou uma mudança de tom face à postura mais dura adotada por Moscovo nos últimos meses.

Ainda assim, essa abertura continua rodeada de dúvidas.

A escolha de um antigo líder europeu pró-Kremlin como possível intermediário e as exigências maximalistas feitas por assessores russos sobre o Donbass levantam reservas sobre a disponibilidade real de Moscovo para dar passos concretos no sentido de terminar a invasão.

Para já, a guerra continua sem desfecho claro.

Mas os sinais acumulados na frente, nas perdas humanas, na logística e nos ataques em profundidade sugerem que a Rússia atravessa uma das fases mais difíceis desde o início da invasão em larga escala.

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