Pela primeira vez desde o início da invasão russa em larga escala, em 2022, a iniciativa no campo de batalha parece estar a deslocar-se a favor da Ucrânia.
A avaliação é feita por analistas citados pelo ‘The Economist’ e recuperada pelo ‘Kyiv Post’, num momento em que Moscovo enfrenta dificuldades crescentes na frente, perdas elevadas e ataques ucranianos cada vez mais eficazes contra alvos situados muito para lá das linhas de combate.
O simbolismo dessa pressão foi visível a 9 de maio, durante a parada do Dia da Vitória em Moscovo.
Ao contrário de anos anteriores, o desfile russo decorreu sem grande presença de equipamento militar pesado, num sinal interpretado como reflexo do desgaste da capacidade militar russa.
Ofensiva russa da primavera falha objetivos
No terreno, a esperada ofensiva russa da primavera ficou aquém das expectativas.
Em abril, as forças russas registaram uma perda territorial líquida pela primeira vez desde agosto de 2024, quando a Ucrânia lançou operações na região russa de Kursk.
Com base em estimativas assentes em dados do Institute for the Study of War, Moscovo terá perdido o controlo de cerca de 113 quilómetros quadrados no último mês.
Os analistas atribuem estes ganhos ucranianos a uma combinação de contra-ataques localizados, ataques de média distância mais precisos e perturbações nas comunicações e na logística russas.
“De forma geral, parece um ponto de inflexão na guerra”, afirmou Lawrence Freedman, professor emérito do King’s College London, ao ‘The Economist’.
O especialista avisou, porém, que novos fracassos russos poderão provocar colapsos mais amplos em alguns setores da frente.
Rússia perde cerca de 35 mil militares por mês
O desgaste humano continua a ser um dos maiores problemas de Moscovo.
As estimativas citadas apontam para perdas russas de cerca de 35 mil militares por mês, um ritmo superior à capacidade de recrutamento.
Desde o início da invasão em 2022, as baixas russas, entre mortos e feridos, estarão próximas de 1,4 milhões, de acordo com estimativas ucranianas.
Outro sinal preocupante para Moscovo é a deterioração da relação entre mortos e feridos.
Autoridades ucranianas, incluindo o presidente Volodymyr Zelensky, têm sugerido que as forças russas poderão estar agora a perder quase dois soldados mortos por cada ferido, uma proporção muito mais desfavorável do que em fases anteriores da guerra.
Drones FPV estão a transformar o campo de batalha
Analistas militares associam esta evolução ao peso crescente dos drones de visão em primeira pessoa, conhecidos como FPV.
Estes drones já poderão ser responsáveis por até 80% das baixas no campo de batalha.
Muitos são guiados por cabos de fibra ótica e reforçados com inteligência artificial, o que os torna mais difíceis de detetar e mais eficazes contra tropas, posições avançadas e operações de evacuação.
“Eles simplesmente deixam os feridos no campo de batalha”, afirmou Seth Jones, do Center for Strategic and International Studies, ao ‘The Economist’.
A guerra de drones está também a alterar a retaguarda imediata.
Uma “zona de morte” que pode estender-se até 20 quilómetros está a dificultar a logística russa, limitando os movimentos de colunas militares e complicando o reabastecimento das unidades em avanço.
Ucrânia ataca cada vez mais longe dentro da Rússia
Ao mesmo tempo, Kiev está a alargar a sua capacidade de ataque contra alvos em território russo.
Drones de médio alcance, capazes de atingir infraestruturas entre 50 e 300 quilómetros, e sistemas de longo alcance, com alcance até 2.000 quilómetros, têm sido usados contra instalações petrolíferas, aeródromos e centros militares.
Em março, a Ucrânia terá ultrapassado a Rússia no número de ataques com drones de longo alcance.
Estas operações colocam até 70% da população russa dentro de potencial alcance, acrescentando pressão psicológica aos danos económicos.
Os ataques contra infraestruturas energéticas já terão obrigado a cortes temporários de produção de até 400 mil barris por dia.
Zelensky afirmou recentemente que estes ataques custaram a Moscovo 7 mil milhões de dólares, cerca de 6,5 mil milhões de euros, em receitas petrolíferas perdidas este ano.
Moscovo ainda resiste, mas acumula sinais de desgaste
Apesar dos reveses, a dimensão militar, territorial e económica da Rússia continua a dar a Moscovo capacidade para prolongar a guerra.
Mas os sinais de pressão acumulam-se.
A defesa aérea russa está cada vez mais sobrecarregada, abrindo falhas na proteção de infraestruturas críticas.
“A realidade é que estão a ter dificuldades na frente e pouca coisa lhes está a correr bem”, afirmou Lawrence Freedman.
A questão decisiva será perceber se esta tendência se mantém nos próximos meses.
Muito dependerá da capacidade da Rússia para se adaptar à vantagem ucraniana nos drones ou para lançar uma nova ofensiva com impacto real.
“Se estiver a fazer um briefing a Putin, o cenário é bastante sombrio”
Para já, segundo a análise citada pelo ‘Kyiv Post’, a trajetória da guerra sugere que Kiev está a ganhar vantagem.
“É difícil ver como as coisas podem melhorar para a Rússia. Se estiver a fazer um briefing a Putin, o cenário é bastante sombrio”, afirmou Seth Jones.
A mudança não significa que a guerra esteja perto de terminar, nem que a Rússia tenha perdido capacidade ofensiva.
Mas indica que Moscovo enfrenta uma fase particularmente difícil, marcada por perdas humanas elevadas, menor capacidade de avanço e ataques ucranianos cada vez mais profundos.
Putin fala em fim da guerra, mas mantém exigências
A 9 de maio, Vladimir Putin afirmou que a guerra na Ucrânia está “a caminhar para o fim” e mostrou abertura a conversações com a Europa.
A declaração marcou uma mudança de tom face à postura mais dura adotada por Moscovo nos últimos meses.
Ainda assim, essa abertura continua rodeada de dúvidas.
A escolha de um antigo líder europeu pró-Kremlin como possível intermediário e as exigências maximalistas feitas por assessores russos sobre o Donbass levantam reservas sobre a disponibilidade real de Moscovo para dar passos concretos no sentido de terminar a invasão.
Para já, a guerra continua sem desfecho claro.
Mas os sinais acumulados na frente, nas perdas humanas, na logística e nos ataques em profundidade sugerem que a Rússia atravessa uma das fases mais difíceis desde o início da invasão em larga escala.




