A guerra chegou aos cargueiros: Rússia e Ucrânia alargam conflito ao Mar Negro

Ataques dos últimos dias quebraram um entendimento informal entre Kiev e Moscovo que, apesar da guerra, evitava transformar cargueiros e petroleiros em alvos sistemáticos

Francisco Laranjeira

A guerra no Mar Negro entrou numa nova fase. Depois de meses em que os navios mercantes escaparam, em grande medida, a ataques diretos, Rússia e Ucrânia intensificaram as operações contra embarcações civis, aumentando o risco para uma das rotas marítimas mais importantes da região.

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Segundo o ‘Kyiv Post’, os ataques dos últimos dias quebraram um entendimento informal entre Kiev e Moscovo que, apesar da guerra, evitava transformar cargueiros e petroleiros em alvos sistemáticos.

Ataques dos dois lados

A escalada começou no domingo, quando um navio graneleiro turco carregado com cereais foi atingido por mísseis russos ao largo de Odessa, pouco depois de abandonar o porto ucraniano.

O Golden Leo, com bandeira da Guiné-Bissau, sofreu danos graves e o ataque matou 10 tripulantes, na maioria sírios e indianos, tornando-se o episódio mais mortal contra um navio mercante desde o início da invasão russa, segundo o ‘Kyiv Post’ e a publicação especializada ‘Tradewinds News’.

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Menos de 12 horas depois, a resposta ucraniana chegou sob a forma de enxames de drones.

As forças de Kiev atacaram o terminal petrolífero do Consórcio do Oleoduto do Cáspio (CPC), perto de Novorossiysk, atingindo vários petroleiros durante operações de carregamento.

Entre eles estava o Nelsa, um navio identificado como pertencente à chamada “frota fantasma” usada pela Rússia para contornar as sanções internacionais sobre as exportações de petróleo.

Segundo as autoridades ucranianas, os drones visaram deliberadamente a ponte de comando e a casa das máquinas, procurando incapacitar as embarcações sem provocar derrames de crude.

Além do Nelsa, foram também atingidos os petroleiros Asia e Nissos Ios, que transportavam petróleo proveniente do Cazaquistão.

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Cazaquistão acusa Kiev

Os ataques levaram o Governo do Cazaquistão a condenar a operação ucraniana.

Num comunicado conjunto, os ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Energia classificaram os ataques como “terroristas”, acusando Kiev de colocar em risco tripulações internacionais e de comprometer o transporte de petróleo cazaque destinado aos mercados mundiais.

As autoridades de Astana sustentam que os navios transportavam crude pertencente ao Cazaquistão e que as operações tinham sido previamente comunicadas às partes envolvidas.

Novo incidente junto à Roménia

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A tensão aumentou ainda mais na segunda-feira à noite, quando o Gas Lisbon, um navio-tanque de gás de petróleo liquefeito (GPL) com bandeira da Libéria e destino ao porto ucraniano de Reni, foi atingido ao largo da costa romena.

O presidente da Roménia, Nicușor Dan, revelou que o incidente ocorreu cerca de 37 quilómetros da costa, em águas romenas.

Três tripulantes ficaram feridos e Bucareste enviou meios navais para prestar assistência e impedir que a embarcação ficasse à deriva.

Embora a investigação esteja em curso, Nicușor Dan afirmou que o incidente é “provavelmente parte da guerra ilegal de agressão da Federação Russa contra a Ucrânia”.

Também o ministro dos Negócios Estrangeiros em exercício da Ucrânia, Andrii Sybiha, responsabilizou Moscovo, classificando o ataque como “mais um exemplo do terrorismo russo”.

Uma rota comercial cada vez mais perigosa

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A intensificação dos ataques alimenta os receios de que o Mar Negro deixe de ser apenas um teatro de operações militares para passar a representar um risco crescente para a navegação comercial internacional.

Nas últimas semanas, a Rússia multiplicou os ataques contra navios mercantes que operam a partir de portos ucranianos, enquanto Kiev lançou uma campanha contra a chamada frota fantasma, composta por petroleiros sancionados que ajudam Moscovo a exportar petróleo apesar das restrições ocidentais.

Segundo o ‘Kyiv Post’, as forças ucranianas afirmam ter atingido mais de 170 embarcações russas no Mar de Azov e no Mar Negro desde o início da operação, argumentando que estes navios financiam o esforço de guerra do Kremlin e constituem, por isso, alvos militares legítimos.

O resultado é uma escalada que aproxima cada vez mais a guerra das rotas comerciais internacionais e aumenta o risco de novos incidentes envolvendo embarcações civis e tripulações estrangeiras.

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