A fuga tensa de Trump da cimeira da NATO: Irão, cortinas fechadas e uma troca de avião de última hora

Decisão levantou novas dúvidas sobre o novo Boeing 747-8 oferecido pelo Qatar, apresentado recentemente como o novo avião presidencial americano

Francisco Laranjeira

Donald Trump deixou a cimeira da NATO em Ancara a bordo do antigo Air Force One, depois de o Serviço Secreto dos EUA ter recomendado a troca de aeronave por razões de segurança ligadas à escalada com o Irão. A decisão levantou novas dúvidas sobre o novo Boeing 747-8 oferecido pelo Qatar, apresentado recentemente como o novo avião presidencial americano.

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Segundo o ‘El Español’, que cita imprensa americana, Trump tinha chegado à capital turca no novo avião, avaliado em cerca de 400 milhões de dólares, aproximadamente 350 milhões de euros, e apelidado de “palácio voador” devido ao seu interior de luxo. Mas, na saída da Turquia, acabou por embarcar no modelo antigo, numa operação conduzida com rapidez invulgar.

A ‘CBS News’ noticiou que o Serviço Secreto aconselhou Trump a deixar a Turquia no antigo Air Force One, e não no Boeing 747-8 doado pelo Qatar, depois de pessoas informadas sobre a situação terem apontado preocupações de segurança. A Casa Branca insiste, porém, que a nova aeronave está equipada com protocolos de segurança de alto nível.

De acordo com relatos da imprensa americana, Trump foi encaminhado para o avião sem a habitual paragem junto à escada para responder a perguntas dos jornalistas. Já a bordo, os passageiros terão sido instruídos a baixar as cortinas antes da descolagem, permanecendo as janelas fechadas durante o voo noturno. O próprio Trump confirmou que se tratava de uma medida de segurança, num contexto de ameaças atribuídas ao Irão.

O episódio ocorreu numa altura em que Washington e Teerão voltaram a aproximar-se de uma situação de confronto aberto. Trump tinha anunciado novos bombardeamentos contra o Irão e admitido ser um alvo prioritário de Teerão. Segundo o ‘New York Post’, a troca de avião foi aconselhada num quadro de receios ligados a mísseis de longo alcance e drones iranianos, embora a administração tenha procurado desvalorizar a leitura de que a mudança resultou de uma ameaça específica.

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O avião antigo mantém capacidades defensivas e sistemas seguros de comunicação que são considerados essenciais para o transporte presidencial, sobretudo em situações de crise. Entre essas capacidades estão sistemas de contramedidas contra mísseis e meios de comunicação protegidos que permitem ao presidente continuar em contacto com as estruturas militares e de segurança durante o voo.

As dúvidas recaem agora sobre o novo 747-8 oferecido pelo Qatar. A aeronave foi adaptada para funções presidenciais após meses de trabalhos, mas vários relatos indicam que poderá não ter ainda todas as capacidades defensivas do modelo anterior. A ‘Daily Beast’ noticiou que a falta de algumas funcionalidades militares críticas, incluindo comunicações seguras, reabastecimento em voo e sistemas antimíssil, esteve no centro das preocupações que levaram à troca de avião.

A Casa Branca rejeita a ideia de que o novo aparelho seja inseguro. Steven Cheung, diretor de comunicação, afirmou que o novo Air Force One é uma aeronave moderna, com protocolos de segurança avançados para proteger o presidente e a sua equipa. Ainda assim, fontes citadas por vários meios americanos indicaram que o modelo antigo foi considerado mais adequado para a viagem num momento de tensão com o Irão.

Trump procurou apresentar uma explicação diferente. Disse que queria usar o avião antigo por “nostalgia” e afirmou que o novo aparelho seria enviado para a base britânica de Mildenhall para que militares americanos pudessem vê-lo. De acordo com a ‘Euronews’, o presidente evitou responder diretamente quando questionado sobre se a decisão estava ligada a preocupações de segurança com o Irão.

A troca de avião reacendeu também a polémica em torno da oferta do Qatar. O Boeing 747-8 terá pertencido ao antigo primeiro-ministro qatari Hamad bin Jassim bin Jaber Al Thani e foi transformado num jato de luxo antes de ser oferecido aos Estados Unidos. Trump elogiou repetidamente a aeronave e defendeu que seria “estúpido” recusar um presente avaliado em centenas de milhões de dólares.

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A aceitação do avião gerou críticas de democratas no Congresso, que levantaram dúvidas sobre a chamada cláusula de emolumentos da Constituição dos EUA, que limita a aceitação de presentes de governos estrangeiros por titulares de cargos públicos sem autorização do Congresso. A Casa Branca e o Departamento de Justiça concluíram que o Pentágono poderia aceitar a aeronave, por não existirem condições explícitas associadas à doação.

O episódio de Ancara deixou, porém, uma pergunta mais prática do que jurídica: o novo “palácio voador” está realmente preparado para substituir o antigo Air Force One em situações de risco elevado? A administração americana garante que sim. Mas a decisão de retirar Trump da Turquia no avião antigo, num momento de tensão com o Irão, mostrou que a confiança operacional na nova aeronave ainda não é total.

No fim, Trump aterrou em Mildenhall no antigo Air Force One e mudou depois para o novo 747-8 para regressar a Washington. A sequência permitiu à Casa Branca manter a narrativa de normalidade, mas não dissipou as dúvidas. Entre a ameaça iraniana, as limitações técnicas e a polémica sobre a origem qatari do aparelho, a primeira grande crise do novo Air Force One acabou por acontecer antes mesmo de este se afirmar plenamente como avião presidencial.

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