A “fase V-2” de Putin para satisfazer radicais russos: mísseis milionários, civis mortos e quase nenhum avanço na Ucrânia

Ofensiva não altera o curso militar da guerra nem aproxima Moscovo de uma vitória, mas reforça a estratégia de terror sobre a população civil ucraniana e mantém pressão sobre a Europa

Francisco Laranjeira

A Rússia lançou uma nova vaga maciça de bombardeamentos contra a Ucrânia, com 73 mísseis e 656 drones, num ataque noturno avaliado em cerca de 250 milhões de euros e que provocou pelo menos 21 mortos e mais de 100 feridos, relata o ‘El Mundo’. O ataque ocorreu depois de o Kremlin ter pedido aos embaixadores estrangeiros que abandonassem Kiev imediatamente.

A ofensiva não altera o curso militar da guerra nem aproxima Moscovo de uma vitória, mas reforça a estratégia de terror sobre a população civil ucraniana e mantém pressão sobre a Europa. O alvo principal foi o sistema defensivo da Ucrânia, cada vez mais limitado pela escassez de intercetores Patriot, essenciais para travar mísseis balísticos.

Há também uma leitura interna. Ao intensificar os bombardeamentos contra cidades ucranianas, Putin responde aos setores mais radicais do regime e da opinião pública russa, que exigem uma escalada permanente da guerra e pressionam o Kremlin a mostrar força, mesmo quando os avanços no terreno continuam limitados.

O ataque incluiu 33 mísseis balísticos Iskander, oito mísseis hipersónicos Zircon, 27 mísseis de cruzeiro Kh-101, cinco mísseis Kalibr e 656 drones Shahed. A maioria dos drones e dos mísseis de cruzeiro foi intercetada, mas os mísseis balísticos voltaram a mostrar a maior vulnerabilidade ucraniana. Num dos impactos, 15 civis morreram enquanto dormiam nas suas casas, em Dnipro.

O calcanhar de Aquiles da defesa ucraniana

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A defesa antimíssil tornou-se um dos pontos mais críticos da guerra. Os mísseis balísticos são muito mais difíceis de intercetar do que os mísseis de cruzeiro e exigem sistemas como o Patriot, mas os arsenais ucranianos e ocidentais estão sob pressão.

Na semana passada, Volodymyr Zelensky enviou uma carta a Donald Trump a pedir a venda de novos intercetores Patriot, invocando a crescente vulnerabilidade da Ucrânia. Segundo o texto citado pelo ‘El Mundo’, Zelensky avisou que, se a Ucrânia não estiver protegida contra ataques balísticos, as ofensivas russas vão continuar. O presidente ucraniano defendeu ainda que a Europa precisa de uma defesa própria contra mísseis balísticos para que esta guerra possa terminar.

Os pedidos de Kiev estendem-se também à produção industrial. A Ucrânia quer que empresas como a Raytheon, responsável pelo fabrico dos Patriot, aumentem a produção ou concedam licenças de fabrico. O mesmo se aplica aos mísseis SAMP-T, associados a fabricantes como a Thales e a MBDA, que também chegam em número insuficiente.

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A guerra entra na ‘fase V-2’

Na Ucrânia, este tipo de ataque já é descrito como a ‘fase V-2 da guerra’, numa referência aos últimos meses da II Guerra Mundial, quando a Alemanha nazi bombardeava Londres com os primeiros mísseis da história, já sem capacidade real para vencer o conflito.

A comparação não significa que a Rússia esteja derrotada, mas sublinha a natureza dos ataques: bombardeamentos de grande escala, com elevado custo, forte impacto civil e reduzido efeito militar direto. Moscovo não conseguiu cumprir os seus objetivos em quatro anos de guerra e continua a enfrentar custos económicos e humanos crescentes.

A Ucrânia, por outro lado, sobreviveu à invasão e levou a guerra para dentro da Rússia, através de ataques aéreos de longo alcance contra infraestruturas estratégicas.

Civis continuam a pagar o preço

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Os números mostram a intensificação da guerra aérea. De acordo com a Missão de Monitorização dos Direitos Humanos da ONU na Ucrânia, pelo menos 815 civis foram mortos por mísseis russos e 4.174 ficaram feridos nos primeiros quatro meses de 2026.

Este valor representa um aumento de 21% face ao mesmo período de 2025 e de 93% em comparação com os primeiros quatro meses de 2024.

Lawrence Freedman, professor de Estudos de Guerra no King’s College de Londres, resume estes ataques como uma demonstração de frustração militar, mais do que uma estratégia para vencer a guerra. Na sua leitura, a eletricidade será restabelecida, os escombros serão retirados e o exército ucraniano continuará a combater.

Putin preso a uma guerra sem avanço decisivo

A análise militar citada no texto aponta para um impasse russo no terreno. O Instituto para o Estudo da Guerra considera que as forças ucranianas contiveram, em grande medida, a ofensiva russa da primavera-verão de 2026.

O mesmo instituto sustenta que Putin terá desenvolvido uma perceção distorcida dos sucessos militares russos, alimentada por relatos exagerados da liderança militar. Essa leitura errada do campo de batalha poderá ajudar a explicar a insistência do Kremlin em manter elevados gastos de guerra.

Os dados territoriais reforçam esse diagnóstico: em maio, as tropas russas capturaram apenas 14 quilómetros quadrados de território ucraniano, o valor mais baixo desde outubro de 2023, segundo o sistema de verificação de código aberto DeepState.

Com uma frente cada vez mais dominada por drones, onde qualquer avanço terrestre se tornou extremamente difícil, a guerra desloca-se progressivamente para o ar. E é nesse campo que a Ucrânia mostra resistência, mas também a fragilidade mais perigosa: sem mais intercetores, os mísseis balísticos russos continuarão a passar.

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