A ‘famosa’ garrafa de água deixada no carro: Especialistas alertam para riscos de a beber

Grande parte das águas engarrafadas é comercializada em garrafas de PET (polietileno tereftalato), material frequentemente produzido com catalisadores à base de antimónio (Sb). Este elemento químico pode migrar, em pequenas quantidades, para a água.

Pedro Gonçalves
Agosto 15, 2025
13:00

Num dia de verão, o interior de um carro estacionado ao sol pode transformar-se rapidamente numa autêntica estufa. Investigadores da Arizona State University e da Universidade de Stanford concluíram que, em menos de uma hora, a temperatura interna pode atingir entre 46 e 50 graus Celsius, enquanto superfícies como o tablier chegam facilmente aos 69 ou 70 graus, mesmo que as janelas estejam ligeiramente abertas. Estes valores, muito acima da temperatura ambiente, têm consequências diretas para qualquer garrafa de água esquecida no interior.

Grande parte das águas engarrafadas é comercializada em garrafas de PET (polietileno tereftalato), material frequentemente produzido com catalisadores à base de antimónio (Sb). Este elemento químico pode migrar, em pequenas quantidades, para a água. Estudos indicam que essa migração aumenta com o tempo e, sobretudo, com o calor. Em condições normais de armazenamento, as concentrações permanecem abaixo do limite definido pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), fixado em 6 microgramas por litro. No entanto, testes realizados entre 60 e 85 graus Celsius, durante vários dias, revelaram níveis próximos ou, em alguns casos, superiores a esse valor. Um relatório de 2023 confirma que deixar garrafas de PET num carro quente acelera substancialmente este processo.

Segundo a Food and Drug Administration (FDA), o PET não contém bisfenol A (BPA) — substância associada a outros plásticos, como o policarbonato — e a ideia de que estas garrafas libertam dioxinas não passa de um mito urbano.

Outro fator de preocupação é a libertação de micro e nanoplásticos. Um estudo do National Institute of Standards and Technology mostrou que a exposição de plásticos à água quente pode libertar partículas na ordem dos triliões por litro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que estas partículas estão presentes na água engarrafada, mas sublinha que os riscos diretos para a saúde ainda não estão totalmente estabelecidos, recomendando, no entanto, que a exposição seja reduzida sempre que possível.

Quando a garrafa já foi aberta, o maior risco deixa de ser químico e passa a ser microbiológico. Conforme explicou o New York Times, a introdução de bactérias pela boca ou pelas mãos, combinada com temperaturas consideradas “zona de perigo” para a segurança alimentar, pode levar a uma rápida multiplicação de microrganismos. Por isso, uma garrafa aberta deixada num carro quente não deve ser consumida.

Na prática, se a garrafa estiver selada e tiver permanecido apenas algumas horas exposta ao calor, o risco químico é reduzido, embora possa ocorrer alteração do sabor ou odor. Contudo, se tiver ficado dias ao calor ou apresentar sinais de deformação, a recomendação é evitar o consumo. Já no caso de garrafas abertas, a orientação é descartá-las sempre que tenham estado expostas a temperaturas elevadas.

Para reduzir riscos, especialistas aconselham a não deixar água engarrafada dentro do carro, optar por garrafas reutilizáveis de aço inox com isolamento térmico e evitar armazenar PET ao sol ou em locais quentes por períodos prolongados. Além de proteger a saúde, esta prática contribui para diminuir o consumo de plástico descartável.

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