A estratégia nacional de tecnologias emergentes para materiais avançados

Opinião de Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Executive Digest

Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

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Um grupo de especialistas definiu recentemente a Estratégia Nacional para Tecnologias Emergentes em Materiais Avançados que propõe uma visão integrada para posicionar Portugal como um ator europeu relevante no desenvolvimento, industrialização e comercialização de materiais avançados. Esta estratégia parte do reconhecimento de que estes materiais constituem uma tecnologia fundamental para a competitividade industrial, a transição energética, a digitalização e a autonomia estratégica europeia, sendo essenciais para setores como a mobilidade, construção, energia, eletrónica, espaço e defesa, entre outros, e tem como base a economia circular.

Portugal dispõe de um ecossistema científico e tecnológico robusto, composto por universidades, centros de investigação, laboratórios colaborativos (CoLABs), centros tecnológicos e uma base industrial especializada. Este ecossistema inclui competências reconhecidas em áreas como materiais funcionais e eletrónicos, polímeros e compósitos, cerâmicas avançadas, nanomateriais, fotónica e manufatura avançada. Paralelamente, existe uma forte presença industrial de setores como os moldes, automóvel, cerâmica, vidro, têxteis técnicos, espaço e defesa, constituindo uma base sólida para a valorização económica do conhecimento produzido.

A estratégia assume como missão criar um ecossistema nacional integrado, orientado por dados e fortemente ligado à indústria, capaz de acelerar a descoberta, validação, demonstração e adoção de novos materiais. O objetivo é transformar a excelência científica nacional em valor económico, reforçando simultaneamente a resiliência industrial, a sustentabilidade ambiental e a soberania tecnológica. Para tal, é enfatizada a necessidade de integrar investigação, infraestruturas digitais, capacidades industriais e instrumentos de financiamento num modelo coordenado de inovação.

Um elemento central desta visão é a digitalização. Assim, é destacado o papel crescente da inteligência artificial, da modelação computacional e das infraestruturas de dados interoperáveis na aceleração do desenvolvimento de novos materiais. Neste contexto, o conceito de Digital Product Passport surge como um instrumento estratégico para assegurar a rastreabilidade, transparência e gestão do ciclo de vida dos materiais, desde a extração das matérias-primas até à reutilização e reciclagem dos produtos. Esta abordagem contribui simultaneamente para a competitividade industrial e para os objetivos da economia circular.

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A visão para 2030 assenta na criação de um ecossistema nacional articulado, que elimine a fragmentação atualmente existente entre os diferentes atores do sistema científico e tecnológico. Pretende-se estabelecer infraestruturas interoperáveis, promover a ligação entre investigação e indústria e criar capacidade para validar e escalar tecnologias desde níveis intermédios de maturidade tecnológica. Até essa data, espera-se que Portugal seja capaz de acelerar a transferência de tecnologia, promover a aplicação transversal dos materiais avançados em múltiplos setores e reforçar a formação de recursos humanos altamente qualificados em ciência dos materiais, inteligência artificial e manufatura avançada.

Para 2035 a visão é, naturalmente, ainda mais ambiciosa. Prevê-se que Portugal seja reconhecido como um dos principais intervenientes europeus na área dos materiais avançados, nomeadamente em certas áreas específicas, possuindo capacidades consolidadas de industrialização e integração em cadeias de valor estratégicas nacionais e europeias. Espera-se que os materiais avançados estejam plenamente incorporados em áreas como a mobilidade sustentável, sistemas energéticos, microeletrónica, espaço e defesa, entre outras. Pretende-se igualmente consolidar capacidades nacionais baseadas em recursos endógenos, incluindo recursos marinhos, minerais e biomassa, contribuindo para uma maior autonomia no fornecimento de matérias-primas críticas.

Para concretizar esta visão, a estratégia organiza-se em quatro pilares fundamentais. O primeiro está centrado na inovação e transferência tecnológica, procurando assegurar que os resultados da investigação são passam a aplicações industriais. O segundo pilar foca-se no desenvolvimento e articulação de infraestruturas de investigação, validação e escala piloto. O terceiro visa reforçar a formação, qualificação e atração de talento, garantindo competências adequadas às necessidades emergentes da indústria. O quarto pilar procura, finalmente, mobilizar instrumentos de financiamento e investimento que permitam apoiar o percurso completo da inovação, desde a investigação até à comercialização.

Ao longo de toda a estratégia delineada, a sustentabilidade é identificada como um princípio transversal. Os materiais avançados deverão contribuir para a eficiência energética, a redução das emissões, a substituição de matérias-primas críticas, a circularidade dos recursos e a criação de produtos mais duráveis e recicláveis. Esta abordagem está alinhada com as principais políticas europeias, incluindo o Green Deal, o Net-Zero Industry Act, o Critical Raw Materials Act e outras iniciativas destinadas a reforçar a competitividade e resiliência industrial europeia.

Em síntese, foi traçado o enquadramento estratégico da iniciativa, definindo a missão, a visão e os objetivos de longo prazo para os materiais avançados em Portugal. Este defende uma transformação estrutural do ecossistema nacional de inovação, baseada na integração entre ciência, indústria, digitalização e sustentabilidade, com o propósito de posicionar Portugal como um polo europeu de excelência e inovação em materiais avançados até 2035.

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E, finalizando, lembrem-se que, sem materiais adequados às novas tecnologias, estas não poderão contribuir para o avanço tecnológico, ambiental, social e económico da sociedade.

 

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