A estrada não é um parêntesis no trabalho: porque precisamos de integrar a segurança rodoviária no coração do ESG

Enquanto discutimos pegadas de carbono e diversidade nos conselhos de administração, continuamos a ignorar o risco mais letal que os nossos colaboradores enfrentam diariamente. Está na hora de desmistificar a segurança ao volante e assumi-la como o pilar mais urgente da responsabilidade social corporativa.

José GuilhermeJosé GuilhermeDiretor Executivo da SEGEF FrotasVer todos os artigos
José Guilherme
José GuilhermeDiretor Executivo da SEGEF FrotasSetembro 15, 2026 8:40

Quando pensamos em acidentes de trabalho, a imagem que nos vem à cabeça é quase sempre a mesma: um estaleiro de construção, uma fábrica industrial ou um armazém de logística. Imaginamos capacetes, botas de proteção e máquinas pesadas. Raras são as vezes em que associamos o local de trabalho ao banco do condutor de um carro de passageiros, de uma carrinha de entregas ou de um veículo comercial em plena autoestrada. No entanto, para centenas de milhares de portugueses, o volante é, na prática, a sua secretária diária.

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Existe um mito silencioso e perigoso instalado no ecossistema empresarial: o de que a segurança rodoviária é um assunto estritamente pessoal ou que diz respeito apenas às autoridades policiais e às campanhas públicas de sensibilização. Assume-se que, assim que um colaborador roda a chave de ignição – quer vá visitar um cliente, prestar assistência técnica ou deslocar-se entre reuniões -, a sua segurança deixa de ser uma prioridade de gestão corporativa para passar a ser uma mera responsabilidade individual. É um erro profundo e dispendioso.

Em Portugal, os números continuam a confrontar-nos gravemente: em 2024, registámos cerca de 60 mortos na estrada por milhão de habitantes – um indicador tragicamente distante da média europeia (44) e de países como a Dinamarca, Suécia ou Finlândia. Atrás destes números não estão apenas estatísticas; estão vidas interrompidas, famílias desfeitas e equipas traumatizadas.

Mais do que frotas: o elemento “S” da sustentabilidade

Vivemos na era em que a sigla ESG (Environmental, Social, and Governance) dita a agenda e o valor das organizações. As empresas investem fortemente na transição energética, na redução de emissões e em relatórios de sustentabilidade minuciosos. Contudo, há uma contradição gritante: como podemos reivindicar um compromisso autêntico com o pilar Social (“S”) – focado no bem-estar, saúde e segurança dos trabalhadores – se continuamos a fechar os olhos ao risco que estes correm todos os dias nas estradas?

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Garantir que um trabalhador regressa são e salvo a casa no final do dia não é uma questão de cumprimento de métricas burocráticas ou de obrigações legais mínimas. É um imperativo ético e humano. A verdadeira sustentabilidade começa na proteção da vida humana. Reduzir a segurança rodoviária a um mero custo operacional ou a uma apólice de seguro é falhar no compromisso mais básico que uma empresa tem com a sua comunidade e com as suas pessoas.

«Um condutor seguro não é apenas uma questão de custos e processos; é uma vida protegida, uma família poupada e uma organização genuinamente humana.»

Desmistificar para proteger: dar visibilidade a quem já transforma

Outra ideia preconcebida que é urgente desconstruir é a de que a prevenção rodoviária empresarial se destina apenas a grandes multinacionais ou a empresas de transportes pesados. A realidade é muito mais abrangente. A mobilidade profissional em Portugal é maioritariamente feita por pequenas e médias empresas, por equipas comerciais, técnicos de manutenção ou trabalhadores em regime híbrido.

Integrar a segurança rodoviária na cultura da empresa não exige, desde o primeiro dia, investimentos megalómanos. Começa com uma mudança de mentalidade e passos concretos: desde rever políticas que pressionam horários e levam à utilização indevida do telemóvel ao volante, até à aposta na formação contínua e na análise inteligente de dados.

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É precisamente para acelerar esta mudança de mentalidade e dar voz a quem no terreno está a fazer a diferença que nascem iniciativas colaborativas como o projeto Horizonte Seguro, promovido pela Cartrack Portugal e pela SEGEF Frotas. O objetivo destas alianças não é teórico: passa por desmistificar a prevenção rodoviária e demonstrar que qualquer organização, independentemente da sua dimensão, pode e deve implementar práticas de mobilidade segura.

Da reflexão ao reconhecimento: o compromisso de Alcobaça

A mudança de paradigma faz-se através da partilha e do exemplo. Quando a comunidade de gestores, especialistas e líderes empresariais se reúne – como acontecerá no 3.º Encontro Horizonte Seguro, em Alcobaça a 20 de outubro próximo -, o sinal enviado ao mercado é claro: a segurança dos colaboradores na estrada passou a ser uma prioridade estratégica e inadiável de gestão.

Mais do que debater números ou rever processos, é fundamental valorizar o impacto humano das boas práticas. Nesse sentido, iniciativas de reconhecimento como o Prémio Horizonte Seguro desempenham um papel vital. Ao distinguir o trabalho de empresas e gestores de frota que começaram com ações simples – desde programas de incentivo à condução segura a campanhas que envolvem as próprias famílias dos colaboradores -, demonstra-se que a prevenção não é um privilégio de poucas organizações, mas sim uma atitude ao alcance de todas.

Quando uma empresa cuida ativamente da segurança dos seus condutores, os resultados operacionais e económicos surgem naturalmente em forma de menor absentismo, maior eficiência e sustentabilidade do negócio. Mas esses ganhos de eficiência devem ser vistos como a consequência natural de uma cultura de cuidado, e nunca como a sua única razão de ser.

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A estrada não pode continuar a ser um ponto cego no planeamento estratégico e nas políticas ESG das nossas empresas. Desmistificar a segurança rodoviária laboral e dar-lhe o protagonismo devido é um teste decisivo de liderança. Afinal, nenhuma meta financeira ou indicador de produtividade justifica o risco de uma vida perdida no caminho de regresso a casa.

 

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