A Esquerda Romântica

Por Manuel Lopes da Costa, Empresário

Ultimamente, um determinado grupo de portugueses tem vindo a ganhar preponderância na vida nacional. Esse grupo, que podemos denominar de Esquerda Romântica, é composto por um conjunto de cidadãos que acredita ter mais privilégios que os outros e que pode, e deve, impor a sua vontade aos restantes membros da República.

Estes cidadãos, que se encontram praticamente espalhados por todos os quadrantes políticos – embora um partido em particular albergue um maior número deles – têm conseguido, nos últimos tempos, ascender aos mais altos cargos do Estado quer na Assembleia da República, quer em alguns Ministérios e Secretarias de Estado, quer no Conselho de Estado, quer em órgãos judiciais, quer mantendo a sua presença nas Academias Universitárias.

A Esquerda Romântica está plenamente convencida que apenas ela agrega os verdadeiros democratas. Mais: Está plenamente convencida que só ela, e apenas ela, enquanto admira o Tejo sentada nas poltronas da sua casa da Lapa, Estrela ou Príncipe Real com um copo de champagne numa mão e uma tosta de caviar na outra, é que entende o povo. Só ela é que, não só o entende, como o sabe defender dos “ricos”, dos “exploradores”, dos capitalistas, de esses seres terríveis que só servem para pagar os impostos que permitam à Esquerda Romântica continuar a viver o seu sonho de igualdade e fraternidade entre eles. A Esquerda Romântica está igualmente convencida que só ela é culta, só ela tem conhecimento suficiente para apreciar devidamente as artes, só ela sabe de sociologia e teoria económica em geral, razões pelas quais também acredita que merece estar acima dos outros, numa classe à parte.

Na conceção de sociedade ideal dos que integram a Esquerda Romântica existiria o “povo” e eles, os dirigentes. Esquecem, porém, que esse modelo já foi amplamente testado nos antigos países de leste, com a chamada “nomenklatura”, e que não obteve bons resultados. Apesar disso, a Esquerda Romântica é incapaz de admitir que esses regimes não correram bem. Na sua ótica, foi o vil capitalismo ocidental que provocou a queda dos fantásticos regimes ideológicos e democráticos de esquerda quando, na realidade, esses mesmos regimes, por eles tão defendidos, de democráticos tinham muito pouco.

A soberba com que olham para todos os outros e, sobretudo, para todos os outros que os ousam enfrentar com o que, aos seus olhos, são realidades “mesquinhas” – como os aspetos economicistas como o lucro e a sustentabilidade dos negócios – faz com que, repetidamente, tenham atitudes de quem verdadeiramente acredita que está acima da generalidade dos seus concidadãos. Só se assim se compreende que sejam capazes, sem o mínimo temor das consequências, de proferir alarvidades (o termo é forte, mas não me ocorre outro) como as que escreveu recentemente o senhor deputado Ascenso Simões: “O 25 de abril de 1974 não foi uma revolução, foi uma festa. Devia ter havido sangue, devia ter havido mortos.” (in Publico.pt 19/02/21). Que Carmo e Trindade não cairiam se tal atrevimento tivesse vindo de um deputado do centro ou da direita parlamentar? Ter-se-iam certamente levantado clamores, vozes ofendidas, e ter-se-ia bradado aos céus que os defensores do fascismo estavam de volta.

Independentemente do quadrante político, alguém que defende revoluções sangrentas com mortos e quase que como num incitamento à violência, não deveria ter lugar no nosso Parlamento. Mas, as palavras de Ascenso Simões só ainda não tiveram consequências de maior porque a Esquerda Romântica sabe e protege sempre os seus correligionários.

A Esquerda Romântica também acredita que não deve pagar impostos: “Robles escapa ao pagamento do “Imposto Mortágua” no prédio em Alfama” (in jornaleconomico.sapo.pt, 31/07/2018). Este caso é bem o exemplo que quem acredita que não deve pagar impostos, sai ileso e não sofre consequências de maior, nenhuma mesmo. E, como o país tem memória curta, nada acontece e não é de admirar que a Esquerda Romântica, na esperança de que um dos seus filhos se reabilite e possa voltar à ribalta política, nem queira ouvir falar de algo que considera menor e pouco edificante debater.

Mas, o desfecho será certamente outro se, porventura, algum empresário, aflito pelas consequências da pandemia, faltar ao pagamento de uma única prestação que seja à Segurança Social: Neste caso, a Esquerda Romântica apressar-se-á em denunciar o facto com toda a força e clareza que só ela tem.

Outra das características da Esquerda Romântica é não se envergonhar de dar entrevistas como a que deu Mariana Mortágua a Eduardo Jaime no canal Q (in www.youtube.com/watch?v=ZyzoFL3mhKs, 08/03/2017) onde, sem pudor, classifica os seus assaltos, ou seja, os assaltos onde participaram familiares seus, como “assaltos gentis”, perpetrados por “piratas românticos”, por oposição a “assaltos à seria”, ou seja, os perpetuados pelos “tipos dos mercados financeiros” (min 7:05 na acima citada entrevista). O que a Esquerda Romântica esquece é que, no caso do “gentil” assalto ao paquete Santa Maria: “Durante a ação foi assassinado o 3.º piloto, o oficial João José Nascimento Costa” (in pt.wikipedia.org/wiki/Operação_Dulcineia).

Para a Esquerda Romântica João José Nascimento Costa não era certamente nem um concidadão, nem um português, nem o filho, irmão ou familiar de alguém. Ao contrário do que pensa a Esquerda Romântica, talvez João José Nascimento Costa merecesse ser recordado tal como é recordada, e bem, Catarina Eufémia. Ambos foram vítimas da estupidez do seu tempo e da falta de tolerância. Mas, o esquecer deste episódio mortal do assalto ao Santa Maria só se torna possível porque, apesar deste tipo de confissões, nada aconteceu, nada acontece e, infelizmente, nada acontecerá. E assim, a Esquerda Romântica fica convencida que é intocável, que é inimputável.

A cegueira ideológica da Esquerda Romântica impede-a de alguma vez condenar, ou mesmo de achar que se deva condenar, o regime autoritário, sangrento e gerador de fome que vigora hoje na Venezuela; Um governo sustentado pelos exatos princípios e ideias tantas vezes por ela defendidos. E, quer o regime de Maduro, quer o regime de Castro, quer o regime de Evo Morales, ou mesmo o regime de Kim Jong-un, são, para a Esquerda Romântica, regimes perfeitamente democráticos, sustentados na vontade do seu povo habitantes de países soberanos cujas opções devem ser respeitadas. Mas, se porventura nesses países o mesmo regime tivesse uma orientação ideológica de direita musculada, então este já deveria ser objeto de sanções, de denúncias internacionais e até mesmo de apoio indiscutível à luta armada interna que o tentasse derrubar. Esta é precisamente a falta de equidade nas medidas e posturas que rege a Esquerda Romântica perante uma mesma situação: A de uma ditadura onde vigora a imposição das vontades de uma minoria de favorecidos sobre os mais desfavorecidos.

Erguer a bandeira do racismo com uma facilidade aterradora é mais uma característica da Esquerda Romântica. Sendo que, infelizmente, só considera ser racismo aquele que o homem “branco” exerce sobre o “negro”. Não deixando essa de ser, efetivamente, uma forma de racismo, convinha talvez à Esquerda Romântica perceber que é igualmente racismo (e crime dado ser incitamento à violência) desejar publicamente “morte ao homem branco” mesmo quando querendo apenas citar Frantz Fanon. É errado. Portugal nunca foi racista, todo o sucesso da sua história, dos seus descobrimentos bem como a nossa capacidade em nos miscigenarmos o comprovam. Existem racistas em Portugal como em qualquer outro país e “mesmo que um dia exista apenas um racista entre nós, será sempre um racista a mais”. Mas, as recentes e continuadas atitudes da Esquerda Romântica em relação ao racismo no nosso país, erguendo permanentemente a bandeira do que não existe, podem levar a que Portugal se transforme efetivamente no que ainda não é: Racista e intolerante. Uma inverdade proferida repetidas vezes torna-se, infelizmente, numa verdade.

A Esquerda Romântica tem vergonha de alguma da nossa história. Tem vergonha dos nossos descobrimentos, do nosso império colonial, das nossas conquistas e da capacidade que os portugueses tiveram em se afirmar no mundo. Atreve-se, com um à-vontade próprio dos intocáveis, a pedir a destruição do Padrão dos Descobrimentos, do Jardim do Império, etc. Estão convencidos que todos esses heróis nacionais não passam de criminosos que impunham à força a sua vontade aos povos indefesos. A Esquerda Romântica deveria perceber que sem história não existe um povo, não existe uma cultura, não existe uma razão de existir. Renegar a nossa história como povo é como um filho renegar a mãe, ficando, mesmo não tendo consciência disso, desamparado, só e frágil.

A Esquerda Romântica nada teme exceto uma e única coisa que denomina de direita xenófoba, racista e revivalista do fascismo, mas que, na realidade, é apenas a Direita Demagoga. A Esquerda Romântica teme a Direita Demagoga porque é a única que, tal como ela, fala o que quer, quando quer e, tal com ela, vende sonhos e fantasias sem receios do politicamente correto, ganhando assim seguidores para a sua causa. Quaisquer causas que não as que a Esquerda Romântica defende não são de todo bem-vindas porque podem despertar nos seus seguidores o apetite pela alternativa, o que não é bom para o povo, porque o povo, no seu entender, não está suficientemente preparado para saber escolher entre alternativas.

Portugal vive pela primeira vez na sua história recente um momento muito triste e muito grave. Uma altura em que se confrontam abertamente grupos extremistas com pensamentos antagónicos. Mas, o mais preocupante é que ganham seguidores exatamente por isso, por se atacarem mutuamente. A Direita Demagoga não teria lugar no nosso país se a Esquerda Romântica não tivesse começado a ser tão radical, tão intrusiva e tão destrutiva da nossa portugalidade. E a Esquerda Romântica não teria ganho esta dimensão, esta preponderância, esta legitimidade de querer fazer de Portugal o país que ele não é, se os outros, a maioria, os portugueses da social-democracia e do socialismo democrático não tivessem cansado os eleitores com a sua inatividade, a sua falta de visão e de capacidade de entendimento. Está na altura de olhar por Portugal. O país atravessa um momento crítico na sua história e precisa de todos, sem radicalismos, para vencer esta crise. Está na altura de voltar à tolerância e aos verdadeiros valores da sociedade portuguesa para que todos, em conjunto, consigamos voltar a ter o Portugal dos portugueses, de todos os portugueses.

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