O cenário económico está a afastar-se do chamado “Goldilocks”, um período marcado por crescimento resiliente e inflação controlada, para uma fase de reflacionamento, com a subida dos preços a ganhar novamente força. A mudança está a alterar as preferências dos investidores, favorecendo obrigações de curta duração, crédito, setores cíclicos e empresas beneficiadas pelo atual ciclo de investimento em inteligência artificial (IA).
A análise é de Pierre-Alexis Dumont, CIO da Sycomore, gestora integrada na Generali Investments, que considera que o verão ficou marcado por uma subida da inflação, impulsionada pelos preços da energia, metais e produtos agrícolas, enquanto a despesa em defesa, transição energética e IA continuou a sustentar a procura.
Ao mesmo tempo, os défices orçamentais e a elevada oferta de dívida soberana aumentaram as necessidades de financiamento dos Estados, contribuindo para o aumento dos prémios de prazo e mantendo a pressão sobre as taxas de juro de longo prazo.
Este novo contexto tem levado a taxas de desconto mais elevadas e favorecido ativos capazes de gerar retornos imediatos. Commodities, empresas financeiras e ações cíclicas e subvalorizadas recuperaram terreno, enquanto as ações de crescimento e de longa duração viram os seus múltiplos comprimidos.
Segundo Pierre-Alexis Dumont, esta alteração atingiu particularmente o ecossistema da IA, à medida que os investidores reavaliam o financiamento e a rentabilidade dos investimentos associados à tecnologia.
Ainda assim, o responsável considera que o potencial da IA não está a ser colocado em causa. “Quite the reverse, investors are now worried that the technology is moving too fast”, afirma, defendendo que o atual movimento está relacionado sobretudo com duração, avaliações e posicionamento, e não com uma deterioração tradicional dos resultados ou do crédito.
As revisões de resultados permanecem positivas e os spreads de crédito continuam contidos, o que leva a Sycomore a interpretar o movimento como um choque sobretudo sobre as taxas de juro e a duração dos ativos.
Obrigações voltam a ganhar atratividade
A maior dispersão entre classes de ativos e dentro dos próprios mercados acionistas foi outra das características do verão. Os investidores reduziram a exposição a empresas tecnológicas e industriais mais dependentes da IA, eletrificação e equipamentos para semicondutores, enquanto os mercados de crédito e ações continuaram a registar ganhos.
Num contexto marcado por pressões inflacionistas, tensões geopolíticas e preocupações com as finanças públicas, a Sycomore considera que as obrigações voltaram a oferecer oportunidades mais interessantes.
O envelhecimento da população e o aumento da dívida pública estão a elevar as necessidades de financiamento dos governos e a alimentar dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas a longo prazo. Para a gestora, este movimento está também a colocar em causa o estatuto tradicional das obrigações soberanas enquanto ativos isentos de risco.
A subida das taxas de juro estará, assim, a refletir não apenas um ajustamento cíclico, mas também a adaptação dos mercados a um regime potencialmente caracterizado por uma inflação mais volátil e prémios de risco superiores aos registados durante a década de 2010.
Apesar deste cenário, a gestora identifica oportunidades no mercado obrigacionista, sobretudo devido ao aumento das yields para níveis considerados mais atrativos, em particular no segmento Investment Grade, enquanto os fundamentais das empresas continuam, de uma forma geral, sólidos.
Crédito e infraestrutura da IA ganham espaço
Na estratégia da Sycomore, os mercados de crédito apresentam atualmente a relação risco-retorno mais favorável. A subida das yields soberanas não foi acompanhada por um alargamento significativo dos spreads, que permanecem historicamente reduzidos.
Por esse motivo, a gestora prefere maturidades mais curtas, considerando que o rendimento adicional proporcionado por obrigações de maior duração não compensa o aumento da volatilidade.
No mercado acionista, a estratégia não passa por reduzir de forma generalizada a exposição, mas por ajustar as posições consideradas mais vulneráveis, nomeadamente títulos excessivamente consensuais, posições demasiado concentradas e empresas com elevada sensibilidade às taxas de juro.
No universo da IA, a preferência recai agora sobre as empresas que já estão a beneficiar diretamente do atual ciclo de investimento. A exposição está concentrada na infraestrutura necessária para suportar a expansão da tecnologia, incluindo computação, memória e redes óticas, centros de dados, equipamentos elétricos e gestão de energia.
Em sentido contrário, a Sycomore reduziu a exposição a empresas cujo potencial depende de desenvolvimentos tecnológicos futuros, de modelos de monetização ainda pouco definidos ou de projetos de infraestrutura sujeitos a maiores riscos de financiamento, capacidade e execução.
A estratégia procura, desta forma, manter a exposição ao crescimento associado à IA, mas reduzir a dependência de ativos cuja valorização está mais ligada a resultados futuros e distantes no tempo.
A gestora está ainda a reforçar posições que poderão funcionar como proteção perante um eventual choque inflacionista, incluindo empresas financeiras, energia, materiais, metais ligados à transição energética e metais preciosos, bem como empresas com capacidade efetiva para repercutir aumentos de custos nos preços.
Na Europa, a Sycomore está, por outro lado, a reduzir gradualmente a exposição a França devido ao risco político, mantendo sob observação a evolução do diferencial entre as yields das obrigações francesas e alemãs, conhecido como spread OAT-Bund.














