A egrégora da Covid-19

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Recentemente um amigo referiu este termo que há muito não ouvia. Egrégora que na palavra original grega significa “velar, vigiar”. Na linguagem metafísica é a conjugação da energia espiritual de cada pessoa com a energia idêntica de outra. A sua soma cria a egrégora, esta força espiritual que na linguagem mundana tem muitos nomes: inteligência emocional colectiva, espírito de equipa, objectivo comum, missão, consciência colectiva… aparte a criação místico- filosófica, em que podemos ou não acreditar no conceito, agarrei neste termo para falar da egrégora do Covid-19, que se transforma na de saúde pública, e posteriormente na económica e social. Quando tudo estava a voltar à normalidade, voltamos a ter de nos preocupar com o “covid Netflix”, mais uma temporada, nova variante. Mas continuamos a falar de Covid-19 como no início da pandemia, focados no número diário de infetados. E o número de infectados na semana de 20 a 27 de dezembro (dados DGS) é brutal pois cresceu +235% vs 2020, mas felizmente os óbitos caíram -78%, os doentes internados -70%, os doentes em UCI -70% e o número de testes realizados aumentaram +530%. Bem sei que não sou epidemiologista ou especialista de saúde pública, mas estes indicadores estão menos negativos que há um ano atrás. Talvez porque há um processo de vacinação com sucesso, mais conhecimento médico para melhor tratar os doentes internados, maior educação preventiva e dispositivos de proteção individual suficientes. Tendo apenas como 2 factores negativo termos os profissionais de saúde esgotados e cansados e um aumento da despesa pública de saúde (por causa de covid) de cerca de 1.3 biliões de euros. Portanto interessava que houvesse precaução e prudência mas com uma egrégora positiva e não negativa como no início deste ano, em que os números foram assustadores. Mas as notícias que ouvimos diariamente são bastante negativas: recorde de infectados, teletrabalho, dificuldade de testar, encerramento de discotecas e bares, estado quase policial para entrar em alguns países, etc etc etc. E com isso a confiança das pessoas, dos consumidores e dos empresários está a desaparecer, não só em Portugal mas por toda a Europa. Deve acontecer uma redução das exportações, contração do consumo e redução da produtividade. A recuperação do PIB vai sofrer com este cenário macroeconómico negativo, assim como o saldo orçamental, a dívida pública e o défice público do país. Basta lembrar que um dos períodos de maiores vendas das empresas foi adiado, pois o período de saldos não vai acontecer nas datas normais e o período de trocas foi alargado. Por outro lado temos a inflação a subir. Todos dizem que não veio para ficar, que o BCE não alterou as taxas de juro e continua a comprar dívida pública dos países (resta saber por quanto tempo). Também não podemos esquecer a necessidade de injeção de capital na TAP e os elevados custos dos combustíveis e da electricidade. Ou seja, está a formar-se uma egrégora negativa das variáveis de saúde pública e em consequência, uma social e económica para uma tempestade perfeita. E tudo estava a correr bem, o INE publicou os dados do deficite até setembro de 2021 em -2,5%, ou seja melhor que a previsão de -4,3%. Com uma “real” (e não apenas prevista) execução da despesa pública, ou seja os “buffers” normais dos ministros das finanças socialistas, não estão a ser usados como poupança. Para além do desempenho positivo do mercado de trabalho, com um nível de emprego acima das expectativas. E Inclusive um saldo orçamental positivo em 3,5% do PIB, no terceiro trimestre. Mas agora volta a incerteza, a desconfiança e a preocupação, um ambiente que levará à redução do consumo. A redução do consumo irá gerar poupança, mas esta não é positiva, pois infelizmente não é uma decisão individual, ou causada por um aumento de rendimento, ou dinamizada por um incentivo fiscal. É uma poupança forçada, causada por uma redução de oportunidade de consumo ou adiamento do mesmo (para um momento mais tranquilo na mente dos consumidores). E o problema é a falta de confiança e a incerteza do futuro, pois os indicadores reais são positivos. Não sou economista portanto certamente os especialistas falarão melhor do que eu. Mas julgo que a egrégora aqui funcionaria de forma perfeita se o colectivo conhecesse os dados de forma objectiva. Que apesar da variante omicron, estamos melhores que no passado recente. Que os serviços de saúde não estão a colapsar por causa do aumento gigantesco do números de infectados que temos. Que o foco do SNS apenas no covid está a fazer colapsar os serviços de urgência e serviços médicos bem como a adiar a prevenção, diagnóstico e tratamento das outras patologias. Assim como irá provocar uma nova contração económica. Portanto a egrégora positiva é fundamental que se forme, sem aligeirar as medidas de prevenção e diagnóstico, bem como assegurar a proteção dos casos de maior risco. Talvez, como sugestão, pudéssemos começar a divulgar os dados de forma objectiva: número de infectados/ óbitos/ internados / em UCI dividido por doentes vacinados e não vacinados. Desta forma avaliávamos a gravidade real da situação actual, a eficácia da vacinação e faríamos uma melhor previsão das necessidades futuras de curto prazo do SNS. Por outro lado incentivava a vacinação, algo que 89,1% dos portugueses já fizeram. Apresentava dados sobre a eficácia da utilização de dispositivos de proteção individual e cumprimento das regras de distanciamento social. Não deixava que cada um decidisse por si sem proporcionar a informação baseada na evidência, criando uma campanha de comunicação baseada na ciência que abafe as “fake news” e o “achismo” bem português (em que todos acham que sabem alguma coisa) e que as redes sociais popularizaram. Sem alarmismos mas com realismo. A egrégora deixava de ser negativa mas realista e positiva. Algo que o país bem precisa!


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