Por Pedro Bobião, Managing Director da Vide de Grunwald
A economia azul vai atrair capital. Isso já está a acontecer, mesmo que nem sempre de forma visível. O ponto relevante não é esse. O que importa perceber é quem está, de facto, em condições de o receber e de o transformar em atividade económica que se sustenta.
O capital não está à espera de ideias. Está à procura de contexto onde faça sentido entrar, operar e continuar. E é aqui que começa o problema.
Nos últimos anos surgiram muitos projetos com qualidade. Não são conceitos frágeis. Têm tecnologia validada, equipas competentes e, em vários casos, financiamento suficiente para chegar a uma fase sólida de demonstração.
Funcionam, mostram resultados, criam interesse. E depois param.
Param não por falta de mérito, mas porque deixam um espaço controlado e passam a depender de operação real, acesso a recursos, capacidade produtiva, ligação a cadeias de valor, decisões contínuas. Nesse momento, torna-se evidente que não existe uma base preparada para os absorver.
Cada projeto acaba por construir o que devia já existir. Infraestrutura, ligações, processos, condições mínimas de funcionamento. Em vez de escalar, começa quase do zero. Alguns conseguem avançar, mas fazem-no isolados. O que resolvem não reduz o esforço do seguinte.
É por isso que não há acumulação.
Os projetos sucedem-se, validam-se, demonstram. Mas nada disso se incorpora. O sistema não aprende, não fica mais eficiente, não reduz risco. Cada iniciativa resolve o seu problema imediato e esgota-se aí. Gera-se atividade, mas não se constrói economia.
Durante anos tentou-se responder com redes, programas e iniciativas locais. Criaram proximidade, facilitaram arranques. Mas não resolveram o essencial. Criaram movimento, não criaram capacidade.
O problema não está na falta de inovação nem na ausência de capital. Está na forma como estes elementos continuam desligados e, sobretudo, na ausência de responsabilidade sobre essa ligação. Projetos, empresas, conhecimento e financiamento coexistem, mas não funcionam como sistema porque ninguém está responsável por os fazer funcionar como tal.
Sem essa responsabilidade, crescer deixa de ser um processo. Passa a ser um caso isolado que, na maioria das vezes, não se repete.
É aqui que o território deixa de ser geografia e passa a ser estrutura económica. Não como conceito, mas como mecanismo de execução. Um espaço onde recursos, conhecimento, infraestruturas, empresas e capital são organizados com continuidade e capacidade de decisão.
Quando essa base existe, nota-se. Os projetos deixam de estar soltos, encaixam, evoluem, e o que é construído por um passa a servir o seguinte. O financiamento acompanha o percurso. A operação deixa de ser o bloqueio.
Sem isso, o resultado é outro: capital disponível que não entra, projetos que não escalam, valor que não se fixa. Perde-se tempo, perde-se eficiência e perde-se competitividade.
Enquanto a escala continuar a ser tratada como algo que vem depois, o padrão mantém-se. Projetos surgem, funcionam e param antes de ganhar dimensão.
Quando a escala entra desde o início, muda tudo. Muda a forma como os recursos são organizados, como as decisões são tomadas e, sobretudo, quem assume a responsabilidade por garantir que estas ligações existem e funcionam.
O capital não é o problema, mas sim a falta de uma base onde o colocar. Quando essa base começa a existir, o efeito é imediato:
O capital deixa de precisar de ser convencido. Começa a seguir o rumo.
É aí que a economia azul deixa de ser potencial e passa, finalmente, a funcionar como economia.



