A droga de festas proibida que está a ajudar soldados ucranianos traumatizados a recuperar a vida

Segundo a neurologista Kseniia Vosnitsyna, diretora do hospital, os tratamentos convencionais, como a terapia cognitivo-comportamental, podem levar anos a produzir resultados.

Pedro Gonçalves
Abril 3, 2025
14:30

Depois de anos de combates intensos e explosões sucessivas, o corpo e a mente de Katya estavam devastados. Aos 23 anos, esta veterana das forças especiais ucranianas, que se alistou aos 19 anos e serviu nos fuzileiros navais, acumulava lesões graves: hérnias na coluna, fraturas e uma sucessão de traumatismos cranianos. A sua vida transformara-se numa existência marcada por agressividade incontrolável, insónias e dores de cabeça incapacitantes. Mas, ao procurar ajuda num hospital psiquiátrico nos arredores de Kiev, encontrou uma solução inesperada: a cetamina.

A cetamina, um anestésico veterinário e substância amplamente conhecida pelo seu uso recreativo ilegal, está a ser empregue na Ucrânia como uma forma inovadora de tratar o stress pós-traumático (PTSD). O hospital psiquiátrico Lisova Polyana tem vindo a administrar este tratamento a veteranos de guerra, incluindo antigos prisioneiros de guerra submetidos a tortura em cativeiro russo.



Segundo a neurologista Kseniia Vosnitsyna, diretora do hospital, os tratamentos convencionais, como a terapia cognitivo-comportamental, podem levar anos a produzir resultados. No entanto, o uso da cetamina, sob rigorosa supervisão médica, tem mostrado efeitos positivos em questão de dias ou semanas, segundo explica ao diário britânico The Independent.

“Estamos constantemente à procura de novas ferramentas que possam ser utilizadas. A terapia clássica pode demorar anos, e precisamos de algo que funcione mais rapidamente”, afirmou Vosnitsyna. A médica defende que a investigação com psicadélicos pode oferecer soluções inovadoras para lidar com o trauma em larga escala que afeta os soldados ucranianos.

A urgência de recuperar combatentes
A urgência em encontrar terapias eficazes é também um reflexo das necessidades militares da Ucrânia. Com falta de soldados, o país precisa de recuperar rapidamente os militares afetados pelo trauma e devolvê-los ao campo de batalha. Segundo dados do hospital Lisova Polyana, até 80% dos militares tratados acabam por regressar ao serviço ativo.

O psiquiatra Vladislav Metranitsy, pioneiro na terapia psicadélica na Ucrânia, relata que aproximadamente 70% dos pacientes com PTSD mostram melhoria significativa após a terapia com cetamina. “Tornou-se claro que os tratamentos convencionais, que combinam psicoterapia e antidepressivos, não são suficientemente eficazes”, explicou.

A cetamina, tal como outras substâncias psicadélicas como o LSD e a psilocibina (presente nos cogumelos mágicos), atua na neuroplasticidade do cérebro, facilitando a reorganização das conexões neurais e permitindo que os pacientes processem melhor as suas memórias traumáticas.

Experiências transformadoras
O processo de tratamento envolve sessões terapêuticas intensas antes, durante e depois da administração da cetamina. Os pacientes são colocados num estado consciente alterado, muitas vezes vendados e ouvindo música relaxante, permitindo-lhes confrontar as suas experiências mais dolorosas.

Para Katya, esta terapia significou uma mudança radical. “Foi muito importante para mim parar de sobreviver e começar a viver”, explicou. Durante as sessões, ela experimentou alucinações profundas, revivendo momentos de combate e encontrando imagens simbólicas que a ajudaram a redefinir o seu futuro. “Pensei que já estaria morta, e nunca considerei que teria de lidar com estas questões”, confessou.

Atualmente, Katya está a estudar gestão de empresas e continua a sua recuperação, simbolizando a esperança que esta abordagem terapêutica pode oferecer a muitos veteranos ucranianos.

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