A confiança no e-commerce já não se joga no preço, joga-se na segurança

Opinião de Fábio Faria, Head of Partnerships & Business Development do KuantoKusta

André Manuel Mendes

Por Fábio Faria, Head of Partnerships & Business Development do KuantoKusta

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A compra online tornou-se uma prática quotidiana para a maioria dos consumidores, mas o ambiente digital onde ocorre essa experiência mudou de forma significativa nos últimos anos. À medida que o comércio eletrónico cresce, também aumentam os riscos associados à utilização de dados pessoais e à segurança das transações. As fraudes também evoluíram, uma vez que já não dependem apenas de sites mal construídos ou sinais evidentes de desconfiança. Hoje são mais sofisticadas. Assistimos à imitação de lojas legítimas, à criação de domínios quase indistinguíveis dos originais, à reprodução de logótipos, descrições e imagens oficiais, bem como o envio de mensagens fraudulentas relacionadas com encomendas, entregas ou pagamentos, o que dificulta a sua identificação e torna a distinção entre o real e o fraudulento cada vez menos evidente.

A regulação europeia, nomeadamente o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados, definiu regras claras para a utilização de dados pessoais. No entanto, a confiança não se cria apenas por via da legislação. Um estudo publicado na revista Information, Communication & Society conclui que o RGPD não teve um impacto significativo nos níveis de confiança dos utilizadores. Mais do que regras, os consumidores valorizam a forma como as plataformas protegem a sua informação, comunicam as suas práticas e garantem uma experiência de compra segura.

Ao mesmo tempo, o comportamento do consumidor continua a ser um fator crítico. A decisão de compra nem sempre é cautelosa. Um estudo publicado, em 2023, no Journal of Consumer Affairs, mostra que muitos consumidores avançam com compras mesmo quando existem sinais de risco, sobretudo quando o preço ou a conveniência se sobrepõem à perceção de perigo. Isto ajuda a explicar porque é que fraudes online continuam eficazes, mesmo em contextos de maior literacia digital.

Neste cenário, a proteção de dados ganha também uma dimensão preventiva. Não se trata apenas de cumprir regras ou proteger sistemas, mas de reduzir a exposição ao risco ao longo de todo o percurso de compra. A minimização de dados, prevista no RGPD, torna-se particularmente relevante, já que quanto menor for a quantidade de informação partilhada, menor é o impacto potencial de uma violação. A experiência do utilizador também desempenha um papel central. Sinais simples como a presença de ligação segura, autenticação reforçada ou transparência na recolha de dados influenciam diretamente a perceção de segurança. No entanto, do lado do consumidor, continuam a ser necessárias práticas básicas de autoproteção. Verificar a informação da loja através dos canais oficiais da marca, contactos, morada e condições de venda, confirmar a credibilidade das avaliações, desconfiar de ofertas demasiado agressivas e utilizar métodos de pagamento seguros são medidas simples, mas eficazes na redução de risco.

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Ainda assim, a literacia digital não elimina completamente a vulnerabilidade. Muitas decisões de compra são rápidas e impulsivas, o que limita a análise de risco no momento da transação. Isto reforça a ideia de que a segurança não pode depender apenas do comportamento individual, mas tem de estar incorporada no próprio funcionamento das plataformas digitais.

A confiança no e-commerce resulta, por isso, de um equilíbrio entre regulação, tecnologia e comportamento humano. Quando esse equilíbrio falha, o impacto não se limita a perdas financeiras, mas afeta a relação de longo prazo entre consumidor e ambiente digital.

No fim, a proteção de dados deixou de ser um tema secundário. É hoje um elemento central da confiança no comércio digital e um fator determinante na evolução do e-commerce, onde a decisão de compra depende cada vez menos do preço e cada vez mais da segurança percebida.

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