A China era o maior trunfo da indústria automóvel alemã. Hoje está a destruir milhares de empregos na Europa

Durante mais de três décadas, a China foi a mina de ouro das marcas automóveis alemãs. Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz construíram parte do seu sucesso global graças ao maior mercado automóvel do mundo

Automonitor

Durante mais de três décadas, a China foi a mina de ouro das marcas automóveis alemãs. Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz construíram parte do seu sucesso global graças ao maior mercado automóvel do mundo, acumulando milhares de milhões de euros em lucros.

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Agora, essa dependência transformou-se num dos maiores problemas da indústria automóvel alemã.

Segundo o jornal ‘POLITICO’, os fabricantes chineses aproveitaram anos de parcerias tecnológicas para desenvolver veículos elétricos mais avançados e significativamente mais baratos do que os seus rivais europeus. Ao mesmo tempo, o mercado chinês entrou numa guerra de preços sem precedentes, provocando uma queda de cerca de 20% nas vendas este ano e obrigando fabricantes nacionais e estrangeiros a competir pela sobrevivência.

O resultado já está a ser sentido na Europa, com perdas de milhares de milhões de euros, cortes de postos de trabalho e planos para encerrar fábricas.

Volkswagen, BMW e Mercedes sob forte pressão

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A dimensão da crise ficou evidente com a divulgação dos resultados semestrais das principais marcas alemãs.

A BMW anunciou esta semana a eliminação de cerca de 8.000 postos de trabalho na Alemanha até ao final de 2027, através de programas de rescisão voluntária.

A Mercedes-Benz pretende aumentar o horário semanal dos trabalhadores de 35 para 40 horas sem aumentar os salários.

Já a Volkswagen está a negociar com os sindicatos um plano que poderá eliminar até 100.000 empregos e levar ao encerramento de várias fábricas na Europa.

“O ambiente nunca foi tão difícil como o que enfrentamos atualmente”, admitiu o presidente executivo do Grupo Volkswagen, Oliver Blume, citado pelo POLITICO.

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A China deixou de ser cliente para se tornar concorrente

Durante décadas, as marcas alemãs aceitaram formar parcerias obrigatórias com fabricantes chineses para poderem vender automóveis naquele mercado.

Essa estratégia revelou-se extremamente lucrativa durante muitos anos.

Mas, após a pandemia, os fabricantes chineses assumiram a liderança na mobilidade elétrica. Investiram fortemente em baterias, software e tecnologias digitais, passando a oferecer veículos mais equipados e a preços mais baixos.

Segundo Pedro Pacheco, analista da consultora Gartner, as marcas alemãs “estão a perder muito na China e podem nunca recuperar a posição que tinham”.

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Além disso, o prestígio que durante décadas levou muitos consumidores chineses a escolher marcas alemãs começou rapidamente a desaparecer, dando lugar à preferência por fabricantes nacionais.

Os automóveis chineses conquistam a Europa

Enquanto as vendas caem na China, os fabricantes chineses estão a expandir-se rapidamente na Europa.

Dados da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA), citados pelo ‘POLITICO’, mostram que as vendas de automóveis chineses na União Europeia cresceram 63% no primeiro semestre deste ano, passando de cerca de 338 mil unidades em 2025 para quase 549 mil veículos em 2026.

Os automóveis chineses representam já cerca de 10% de todas as vendas de automóveis novos na União Europeia.

Ao mesmo tempo, a China vende atualmente mais automóveis na Europa do que a Alemanha consegue vender no mercado chinês.

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Nem sequer marcas sem presença significativa na China escapam ao impacto.

A Renault viu as vendas da Dacia recuarem 8% no primeiro semestre, num contexto de crescente concorrência de modelos chineses com preços semelhantes, mas mais tecnologia.

As tarifas europeias não travaram a ofensiva

A Comissão Europeia impôs tarifas adicionais sobre os veículos elétricos fabricados na China, após concluir que estes beneficiavam de subsídios estatais.

No entanto, segundo o ‘POLITICO’, essas medidas tiveram um efeito limitado.

Além de muitos fabricantes absorverem parte do custo das tarifas, os híbridos plug-in ficaram fora dessas sanções, permitindo às marcas chinesas continuarem a expandir-se através desse segmento.

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A solução pode passar… pela própria China

Perante esta nova realidade, algumas marcas europeias estão a mudar de estratégia.

A Stellantis já estabeleceu uma parceria com a chinesa Leapmotor, cujas vendas na Europa dispararam durante o último ano.

Também a Volkswagen admite seguir um caminho semelhante.

Oliver Blume revelou aos investidores que o grupo está a estudar a possibilidade de produzir na Europa alguns modelos desenvolvidos inicialmente para o mercado chinês.

Mas essa estratégia também levanta dúvidas.

Segundo Matthias Schmidt, analista do setor automóvel europeu, esses modelos poderão ser vistos pelos consumidores como “automóveis chineses com um logótipo Volkswagen”, levando muitos compradores a optarem diretamente pelas versões chinesas, mais baratas.

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Defesa e novos mercados podem ser a saída

Além de procurar crescer em mercados como a Índia, o Sudeste Asiático e a América Latina, os fabricantes europeus tentam encontrar novas fontes de receita.

Uma delas poderá ser a indústria da defesa.

A Volkswagen confirmou estar em negociações muito avançadas com uma empresa do setor militar e espera tomar uma decisão ainda este ano.

No entanto, essa estratégia poderá trazer novos riscos.

Por um lado, parte dos trabalhadores alemães continua relutante em ver a indústria automóvel associada ao fabrico de equipamento militar.

Por outro, Pequim já começou a impor restrições às exportações para empresas ligadas ao setor da defesa, levantando receios de novas retaliações contra grupos europeus que entrem nesse mercado.

Uma crise económica… e política

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A crise da indústria automóvel está também a transformar-se num problema político para o chanceler alemão Friedrich Merz.

Com eleições regionais marcadas para setembro em estados onde a extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD) continua a crescer, os cortes de empregos estão a alimentar o discurso do partido contra o Governo.

A líder da AfD, Alice Weidel, acusou esta semana o executivo de assistir à “desindustrialização” da Alemanha, apontando os maus resultados de empresas como Volkswagen, Porsche e Infineon como prova do declínio económico do país.

Para Friedrich Merz, o futuro da indústria automóvel deixou de ser apenas uma questão económica. Tornou-se também um dos maiores testes políticos do seu mandato.

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