O consumo excessivo de pornografia e de conteúdos pagos em plataformas como a OnlyFans está a provocar situações de dependência psicológica e colapso financeiro, segundo vários especialistas em comportamentos aditivos. O caso de “Luis”, nome fictício de um homem de 29 anos que teme consequências profissionais, ilustra esta realidade. O que começou como um hábito ocasional transformou-se numa obsessão incapacitante. “Bloqueia o cérebro como as drogas, o jogo compulsivo ou outras adições”, relata ao El Español, após quase duas décadas de consumo problemático.
De acordo com profissionais que acompanham dependentes, a introdução de sistemas de micropagamentos nestas plataformas digitais criou uma dinâmica semelhante à das máquinas de jogo. No caso da OnlyFans, os utilizadores pagam através de subscrições mensais — com um limite de 50 dólares por canal — e através de gratificações adicionais, que podem atingir os 200 dólares. Nicolás Condes, psicólogo e terapeuta da Proyecto Hombre, explica que “o mecanismo é o mesmo do jogo patológico; faz-se um investimento de dinheiro e não se sabe o que se vai receber em troca”.
Recompensa variável e dependência comportamental
O elemento central deste processo é a incerteza da recompensa. Como sublinha Condes, “quando aposto, o meu circuito de recompensa excita-se não com o que ganho, mas com o que o jogo me provoca; nas redes sociais ou aplicações acontece algo semelhante”. O perfil predominante destes casos corresponde maioritariamente a homens entre os 28 e os 40 anos.
Outro fator crítico é a ilusão de intimidade. Muitos utilizadores acreditam estar a pagar para interagir diretamente com a criadora de conteúdos, quando, na realidade, podem estar a comunicar com intermediários contratados para gerir contas e maximizar receitas. A OnlyFans reconhece que os criadores podem delegar a gestão dos seus perfis em terceiros, embora se desvincule dessas agências. Este modelo potencia uma relação emocional artificial que incentiva gastos sucessivos.
José Antonio Hurtado, psicólogo da associação Vida Libre, introduz o conceito de compensação emocional. Segundo explica, muitos jogadores patológicos recorrem ao sexo online para anestesiar o sofrimento provocado por dívidas acumuladas. “Tentamos paliar, anestesiar os nossos sentimentos como consequência dos dramas e dívidas gerados pela ludopatia”, afirma. O especialista alerta ainda para o uso da chamada “intermitência variável”, uma técnica de marketing concebida para gerar dependência. “Não é para que desfrutem de um serviço, mas para que fiquem agarrados”, denuncia.
Impacto financeiro e ameaça às famílias
As consequências económicas são frequentemente o primeiro sinal visível do problema. Hurtado relata situações extremas em que as famílias só descobrem a dimensão da dependência quando recebem notificações de despejo ou são confrontadas por credores. “O seu filho deve-nos tanto; se não nos devolverem, acabará por ir trabalhar sem pernas”, é uma das ameaças reais que descreve.
Jorge Pérez Ferrer e Iracy Llinares Alves, do grupo de trabalho sobre sexualidade do Colégio Oficial de Psicologia da Comunidade Valenciana, sublinham que o carácter interativo da OnlyFans constitui o principal fator diferenciador face à pornografia tradicional. “O facto de uma pessoa atraente prestar atenção é um reforçador muito potente”, explica Pérez Ferrer. A acessibilidade permanente através do telemóvel intensifica o risco: “Uma pessoa pode estar a gastar dinheiro muito rapidamente, sem controlo, com impulsividade e com reforçadores muito potentes”.
Llinares Alves alerta ainda para a normalização do consumo de sexualidade online e o seu impacto na educação sexual dos mais jovens. Entretanto, as consequências físicas também são descritas pelos próprios dependentes. Luis admite ter desenvolvido um problema psicofísico grave: “Era incapaz de ter uma ereção se não estivesse a ver pornografia, e nem assim”. Compara a experiência à saturação sensorial: “Tal como quando se come demasiada comida pouco saudável e deixa de saber a nada, aqui acontece o mesmo”.
A importância de reconhecer o problema
A deteção por parte do círculo próximo é considerada essencial, embora dificultada pelo estigma. “Parece que há coisas de que não se pode falar”, lamenta Nicolás Condes. O especialista defende que ajudar implica impor limites claros: “Ajudar para que a pessoa se aperceba é estabelecer limites. Por aqui já não passo; se queres, temos de fazer alguma coisa”.
Condes reconhece, contudo, que o primeiro obstáculo é a negação: “Muitas vezes, a pessoa com o problema tem dificuldade em vê-lo. Primeiro tenho de aceitar que tenho um problema e aceitar isso custa-nos”. José Antonio Hurtado reforça a importância de uma figura de apoio. “Quando estamos protegidos e temos uma pessoa de apoio, a possibilidade de recuperação multiplica-se por três”, assegura, defendendo que familiares e amigos devem assumir um papel preventivo na proteção da economia e do tempo livre do afetado.
Os especialistas são claros: a saída deste “inferno” passa pelo reconhecimento da dependência e pela procura de ajuda profissional especializada. Trata-se de uma alteração do sistema de recompensa cerebral que dificilmente se resolve apenas com força de vontade, exigindo intervenção terapêutica estruturada e acompanhamento contínuo.













