“A Albânia não está à venda”: Protestos históricos desafiam megaprojetos ligados à família Trump

A Albânia está a viver uma das maiores ondas de contestação popular desde o fim do regime comunista, com milhares de pessoas a saírem diariamente às ruas de Tirana para protestar contra dois megaprojetos turísticos associados a Ivanka Trump e Jared Kushner.

Pedro Zagacho Gonçalves

A Albânia está a viver uma das maiores ondas de contestação popular desde o fim do regime comunista, com milhares de pessoas a saírem diariamente às ruas de Tirana para protestar contra dois megaprojetos turísticos associados a Ivanka Trump e Jared Kushner, filha e genro do presidente norte-americano Donald Trump.

Durante quase duas semanas consecutivas, a capital albanesa transformou-se no epicentro de um movimento que começou como uma mobilização ambiental, mas que rapidamente evoluiu para uma manifestação mais ampla de descontentamento político e social. O lema que domina as ruas é simples e direto: “A Albânia não está à venda”.

Todos os dias, pelas 18h00, milhares de manifestantes concentram-se na Praça Skanderbeg, no centro de Tirana, para contestar os planos de desenvolvimento turístico previstos para a ilha de Sazan e para a península vizinha de Zvërnec, duas áreas localizadas na costa do mar Adriático e integradas numa reserva ecológica protegida no sudoeste do país.

Projetos turísticos dividem o país
Os empreendimentos têm sido promovidos por investidores ligados a Jared Kushner, através da sua empresa de investimentos, e prometem transformar uma das zonas naturais mais preservadas da Albânia num destino de luxo destinado ao turismo internacional.

Numa entrevista recente, Ivanka Trump descreveu Sazan como “uma bela ilha privada no meio do Mediterrâneo”, uma caracterização que contrasta fortemente com a visão apresentada pelas organizações ambientalistas albanesas.

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Para os grupos de defesa do ambiente, os projetos representam uma ameaça séria para um dos ecossistemas mais importantes do país. Segundo estas organizações, a área alberga cerca de 250 espécies de aves, incluindo várias colónias de flamingos, animal que se tornou o principal símbolo dos protestos.

“O desastre ambiental que está a acontecer insulta a nossa dignidade como país”, afirmou Ermal Progni, voluntário da associação ambientalista PPNEA e um dos organizadores das manifestações.

A dimensão da mobilização levou muitos observadores a classificarem o movimento como a maior manifestação ambiental da história recente da Albânia desde a queda do regime comunista em 1991.

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A “revolução dos flamingos”
O movimento ganhou o nome de “Revolução dos flamingos”, expressão que passou a figurar em cartazes, camisolas e materiais distribuídos durante os protestos.

O que começou como uma luta pela preservação ambiental transformou-se gradualmente numa contestação mais abrangente ao sistema político do país.

“Jamais imaginámos que uma revolução fosse possível no nosso país, nem sequer que fosse possível pronunciar a palavra ‘revolução’”, declarou Progni, de 29 anos, enquanto participava numa das concentrações em Tirana.

A mobilização reúne cidadãos de diferentes sensibilidades políticas, unidos por preocupações relacionadas com a transparência governativa, a proteção do património natural e a forma como os grandes projetos económicos têm sido conduzidos.

Pressão sobre o primeiro-ministro Edi Rama
O principal alvo político dos manifestantes é o primeiro-ministro Edi Rama, que governa a Albânia desde 2013 e garantiu, nas eleições do ano passado, um quarto mandato consecutivo.

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A maioria parlamentar liderada pelos socialistas permite ao Governo aprovar alterações constitucionais sem depender do apoio da oposição, reforçando ainda mais a sua posição política.

Segundo Afrim Krasniqi, diretor do Instituto de Estudos Políticos de Tirana, a atual vaga de protestos representa “o momento de maior perigo para Rama e para o seu Governo nos últimos 13 anos”.

Nas manifestações multiplicam-se cartazes com mensagens exigindo a demissão do chefe do Governo.

“Precisamos de mudança, há muitas coisas que não estão bem no país”, afirmou Klevis Nikoli, um manifestante de 33 anos que participou num dos protestos.

As marchas percorrem habitualmente as ruas centrais da capital até à sede do Governo, num ambiente marcado por palavras de ordem, apitos, tambores e bandeiras nacionais.

Acusações de falta de transparência
Os críticos acusam o executivo de ter conduzido o processo com falta de transparência e de privilegiar interesses económicos externos em detrimento da preservação ambiental.

Segundo os organizadores, os projetos tornaram-se o símbolo de problemas mais profundos que afetam a sociedade albanesa, incluindo a perceção de corrupção, promessas de desenvolvimento que não se concretizam e a ausência de diálogo com os cidadãos.

O movimento exige igualmente responsabilidades à oposição. Durante as manifestações, é frequente ouvir palavras de ordem contra Edi Rama e também contra Sali Berisha, antigo primeiro-ministro e atual líder da oposição conservadora.

“Rama na prisão, Berisha na prisão”, gritam frequentemente os manifestantes.

Investimento de 4 mil milhões de euros gera controvérsia
O Governo albanês defende os projetos, argumentando que poderão atrair cerca de 4 mil milhões de euros em investimento e impulsionar significativamente a economia nacional.

Para Edi Rama, os futuros hotéis e infraestruturas de luxo representam uma oportunidade única para um dos países mais pobres da Europa, onde o turismo já representa mais de um quarto do Produto Interno Bruto.

Os críticos, porém, acusam o primeiro-ministro de atuar como defensor dos interesses dos investidores ligados à família Trump.

Afrim Krasniqi considera que Rama procura reforçar a sua imagem junto dos Estados Unidos e consolidar o posicionamento internacional da Albânia como parceiro estratégico do Ocidente.

“O primeiro-ministro tornou-se porta-voz destes projetos e não demonstrou interesse em ouvir a sua própria população”, sustentou o analista.

Como nasceram os projetos
Os planos tornaram-se públicos em março de 2024, quando Jared Kushner divulgou imagens dos empreendimentos nas redes sociais.

As ilustrações mostravam marinas de luxo, piscinas de grandes dimensões, hotéis futuristas e residências exclusivas voltadas para as águas turquesa do Adriático.

A divulgação ocorreu poucos dias após a entrada em vigor de uma nova legislação albanesa que flexibilizou restrições relacionadas com a construção de empreendimentos turísticos de cinco estrelas e resorts de luxo em áreas protegidas.

Meses depois, em dezembro de 2024, o Governo classificou uma empresa ligada à Affinity Partners, fundo de investimento fundado por Kushner, como “investidor estratégico” para o desenvolvimento da ilha de Sazan.

Escavadoras, cercas e investigação anticorrupção
A polémica agravou-se em abril deste ano, quando organizações ambientais denunciaram a presença de maquinaria pesada, cercas e instalações de apoio à construção em Zvërnec antes da apresentação de estudos de impacto ambiental ou da atribuição formal das licenças necessárias.

Pouco depois, em maio, um vídeo tornou-se viral ao mostrar seguranças privados a imobilizarem um residente local que se opunha ao projeto.

A divulgação das imagens provocou uma nova vaga de indignação e contribuiu para aumentar a adesão aos protestos.

Entretanto, a SPAK, a procuradoria especial albanesa de combate à corrupção, abriu uma investigação para apurar possíveis irregularidades relacionadas com os projetos.

Segundo os organizadores das manifestações, os trabalhos de construção denunciados foram entretanto suspensos.

Governo pede calma e garante que não existem obras em curso
Face ao aumento da contestação, Edi Rama procurou tranquilizar a população e afirmou que não existe atualmente qualquer projeto em execução.

“Existe apenas uma visão e um plano: transformar a Albânia no destino turístico de alta gama mais atrativo desta parte do mundo”, declarou o primeiro-ministro durante o fim de semana.

Apesar dessas garantias, a mobilização mantém-se forte e continua a reunir milhares de participantes diariamente.

Investidores começam a responder às críticas
A crescente pressão pública levou também alguns investidores a pronunciarem-se.

Asher Abehsera, um dos parceiros locais de Jared Kushner, afirmou numa entrevista ao Wall Street Journal que respeita as preocupações dos opositores, mas apelou à população para aguardar pela divulgação completa dos projetos antes de tirar conclusões.

Ao mesmo tempo, as manifestações levantaram dúvidas sobre a viabilidade futura do investimento.

Os manifestantes recordam que Kushner abandonou no final do ano passado um projeto semelhante na Sérvia, onde pretendia construir um complexo de luxo e uma Torre Trump num antigo quartel militar classificado como património nacional.

A iniciativa acabou por ser travada após protestos públicos e por uma investigação que levou à acusação do então secretário da Cultura sérvio, Nikola Selakovic, por alegadas irregularidades relacionadas com a autorização do empreendimento.

Jovens exigem um futuro diferente
Para muitos participantes, a luta ultrapassa largamente a questão ambiental.

Num país com menos de três milhões de habitantes e uma diáspora superior a 2,2 milhões de pessoas, segundo dados oficiais, os protestos refletem também o descontentamento de uma geração que procura melhores oportunidades e não quer ser forçada a emigrar.

Entre os manifestantes encontra-se Ermal Progni, que regressou recentemente à Albânia após quatro anos a viver na Alemanha.

Nas ruas de Tirana, uma das mensagens mais repetidas resume o espírito do movimento: “O futuro pertence aos flamingos”.

Para Ana Kodra, uma jovem manifestante de 22 anos que participa diariamente nos protestos, a mobilização representa um momento histórico para a sua geração.

“Sinto-me orgulhosa da minha geração. Os políticos dizem que ficamos em casa e que não fazemos nada… pois vejam-nos agora”, afirmou.

Enquanto os protestos continuam a crescer, a “Revolução dos flamingos” transformou-se num símbolo de resistência ambiental, mas também numa expressão do desejo de mudança política e social que atravessa atualmente a Albânia.

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