68 governos em 80 anos. Esta sexta-feira, Meloni bate Berlusconi e faz história em Itália

Executivo liderado pela primeira-ministra torna-se assim no governo ininterrupto mais duradouro de Itália desde a II Guerra Mundial, superando os 1.412 dias do segundo Governo Berlusconi, que esteve em funções entre junho de 2001 e abril de 2005

Executive Digest

Itália teve 68 governos em 80 anos de República. Um durou apenas 22 dias e, em média, cada executivo sobreviveu cerca de 14 meses. Mas esta sexta-feira Giorgia Meloni chega aos 1.413 dias à frente do mesmo governo e ultrapassa um recorde que pertencia a Silvio Berlusconi.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

O executivo liderado pela primeira-ministra torna-se assim no governo ininterrupto mais duradouro de Itália desde a II Guerra Mundial, superando os 1.412 dias do segundo Governo Berlusconi, que esteve em funções entre junho de 2001 e abril de 2005.

O marco será celebrado esta sexta-feira num evento em Bari, onde Meloni deverá apresentar a estabilidade política como uma das principais conquistas de quase quatro anos de governação.

Não é um feito menor num país que transformou a queda de governos quase numa característica da sua vida política.

Desde o nascimento da República, em 1946, Itália teve 68 executivos e 31 primeiros-ministros. Antes de Meloni, apenas quatro governos tinham conseguido ultrapassar a barreira dos mil dias.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

De “mulher mais perigosa da Europa” a símbolo de estabilidade

Quando Meloni chegou ao poder, em outubro de 2022, o ambiente internacional era bastante diferente.

A vitória dos Irmãos de Itália e a formação do governo mais à direita do país desde a II Guerra Mundial provocaram preocupação em várias capitais europeias.

A revista alemã ‘Stern’ chegou a apresentar Meloni como “a mulher mais perigosa da Europa”, enquanto o ‘Le Monde’ considerava que o resultado eleitoral italiano lançava “uma sombra sobre o projeto europeu”.

O passado político da nova primeira-ministra alimentava esses receios. Meloni tinha começado a sua militância aos 15 anos no Movimento Social Italiano, partido criado no pós-guerra por antigos apoiantes de Benito Mussolini.

Continue a ler após a publicidade

Mas, uma vez instalada no Palazzo Chigi, procurou rapidamente tranquilizar aliados e mercados.

Reafirmou a pertença de Itália à União Europeia e à NATO, manteve o apoio a Kiev perante a invasão russa e moderou algumas das promessas económicas que tinham levantado dúvidas sobre o futuro das contas públicas italianas.

Quase quatro anos depois, a permanência de Meloni no poder tornou-se uma das características mais marcantes do seu governo.

França teve cinco primeiros-ministros, Reino Unido quatro

O contraste com algumas das maiores potências europeias ajuda a perceber a dimensão da mudança.

Continue a ler após a publicidade

Desde que Meloni chegou ao poder, no outono de 2022, França passou por cinco primeiros-ministros e o Reino Unido por quatro.

Itália, durante décadas associada a governos frágeis e coligações constantemente à beira da rutura, manteve a mesma primeira-ministra e a mesma coligação.

A diferença é ainda mais significativa quando observada através da história política italiana.

Segundo dados compilados pela ‘Reuters’, o primeiro Governo de Amintore Fanfani, em 1954, durou apenas 22 dias. O tempo médio de vida dos governos italianos desde 1946 ronda os 14 meses.

Antes de Meloni, o recordista era o segundo Governo Berlusconi, com 1.412 dias. Seguiam-se o quarto Governo Berlusconi, com 1.287, o primeiro Governo Bettino Craxi, com 1.093, e o Governo Matteo Renzi, com 1.024.

Meloni ultrapassa-os agora a todos.

Continue a ler após a publicidade

Mais emprego e desemprego abaixo dos 6%

A estabilidade também tem sido acompanhada por alguns indicadores económicos favoráveis que o Governo pretende explorar politicamente.

Os Irmãos de Itália prepararam para a celebração desta sexta-feira um documento de 28 páginas dedicado aos “recordes e resultados” dos 1.413 dias de governação.

O partido destaca um aumento de cerca de 1,3 milhões de empregos estáveis, uma taxa de emprego de 62,9% e a descida do desemprego para 5,7%.

O Governo reivindica igualmente mais de 21 mil milhões de euros colocados nos bolsos dos italianos através da reforma do imposto sobre o rendimento e da redução dos encargos sobre o trabalho.

O controlo das contas públicas contribuiu ainda para tranquilizar mercados que, em 2022, receavam que as promessas eleitorais da nova coligação agravassem uma dívida pública já muito elevada.

Continue a ler após a publicidade

Mas o balanço está longe de ser consensual.

O crescimento económico continua fraco e algumas das grandes reformas prometidas por Meloni encontraram obstáculos. A reforma destinada a reforçar o poder do primeiro-ministro estagnou depois de passar no Senado, enquanto outras alterações institucionais enfrentaram resistência política e judicial.

O recorde pode esconder o próximo problema de Meloni

Precisamente quando celebra a estabilidade, Meloni começa também a enfrentar um novo problema à sua direita.

Roberto Vannacci, antigo general e ex-dirigente da Liga, lançou este ano o Futuro Nazionale e está a conquistar espaço no eleitorado conservador e nacionalista.

Uma sondagem recente da SWG colocou a nova formação como quarta força política italiana, já à frente do Força Itália, partido fundado por Berlusconi.

O crescimento de Vannacci ameaça fragmentar a coligação que sustentou Meloni durante estes quatro anos.

Continue a ler após a publicidade

É um paradoxo: a primeira-ministra chega ao recorde de estabilidade precisamente quando começam a surgir dúvidas sobre a possibilidade de repetir a fórmula depois das eleições previstas para 2027.

“Os mercados têm apreciado a estabilidade e habituaram-se a ela, mas estamos em Itália, e isso não vai durar para sempre”, afirmou à Reuters Lorenzo Codogno, antigo economista-chefe do Tesouro italiano e atual responsável da LC Macro Advisors.

Bate Berlusconi, mas há uma diferença importante

O recorde desta sexta-feira precisa, contudo, de uma explicação.

Meloni ultrapassa os 1.412 dias do segundo Governo Berlusconi e passa a liderar o executivo individual mais duradouro da história da República italiana.

Isso não significa que já tenha passado Silvio Berlusconi no tempo total passado à frente do país.

Quando o segundo Governo Berlusconi terminou, em abril de 2005, o próprio Berlusconi voltouou imediatamente a formar um novo executivo. O terceiro Governo Berlusconi permaneceu em funções até maio de 2006.

E o empresário e líder do Força Itália voltaria novamente ao Palazzo Chigi entre 2008 e 2011. Somados os seus quatro mandatos, Berlusconi passou cerca de nove anos como primeiro-ministro.

Continue a ler após a publicidade

O que Meloni acaba de conseguir é diferente: nenhum governo individual da República italiana permaneceu tanto tempo consecutivamente em funções.

E pode ainda ficar até 2027

Se conseguir manter a coligação unida, o recorde poderá aumentar significativamente.

As próximas eleições legislativas estão previstas para 2027 e Meloni não esconde a intenção de completar a legislatura e procurar um segundo mandato.

Conseguir chegar ao fim representaria uma raridade ainda maior num sistema político onde quedas de governos, remodelações e novas coligações fazem parte da história do pós-guerra.

Por isso, os 1.413 dias que Meloni assinala esta sexta-feira dizem tanto sobre a atual primeira-ministra como sobre o país que governa.

Em 80 anos, Itália precisou de 68 governos. Desta vez, um deles conseguiu durar quase quatro.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.