Está na ordem do dia e há mesmo quem avance que vai ser responsável por uma nova revolução industrial e social. Falamos da quinta geração móvel de comunicações, que vai permitir o emergir de novas tecnologias que prometem não só alterar a nossa forma de estar no mundo digital, como transformar todos os modelos de negócio. Mas antes de avançarmos pelas potenciais mudanças revolucionárias que se avizinham, expliquemos concretamente o que é o 5G. Trata-se da próxima geração de comunicações móveis e promete trazer velocidades até 100 vezes superiores às oferecidas pelo 4G, assim como uma redução de até 50 vezes na latência. Falando em números, o 5G estará preparado para oferecer velocidades de 10 Gbps (com potencial para chegar aos 20 Gbps) e uma latência de 1 milissegundo. Na prática, isto significa que os conteúdos complexos e “pesados”, por exemplo em alta definição, serão recebidos nos equipamentos praticamente em tempo real.
Para que este fluxo de grandes quantidades de informação corra pela rede é necessário um aumento da banda larga, e esta é uma das vantagens que a quinta geração móvel vai oferecer.
Vantagem que vai possibilitar a implementação e o desenvolvimento da chamada Internet das Coisas (Internet of Things ou IoT), que permite a ligação de vários equipamentos, em simultâneo, capazes de se identificarem e comunicarem entre si e de e para a cloud. Por outro lado, o 5G irá também consumir menos energia aos equipamentos, esperando- se até que aumente a duração da bateria dos dispositivos.
Unidades de produção inteligentes
E se na área de entretenimento a utilização prática do 5G é clara – por exemplo, receber no seu smartphone um filme Full HD em poucos segundos –, de que forma esta tecnologia pode ser aplicada nas empresas e na vida quotidiana? E quais os benefícios dessa mesma aplicação? Desde logo, a capacidade da rede (leia-se largura de banda e rapidez) vai permitir que mais equipamentos se liguem e funcionem em conjunto, praticamente em tempo real, num fluxo mais estável. Isto vai permitir que a indústria e as unidades fabris se transformem em unidades inteligentes, com a Internet das Coisas a ligar todas as máquinas incluídas no processo de produção. Por outro lado, será também possível automatizar tarefas e libertar pessoas para áreas que beneficiam efectivamente da intervenção humana. Isto já para não referir que o 5G vai permitir o uso de robôs nas linhas de produção, o que pode significar um aumento na produção e uma redução nos custos.
Passamos agora para o sector da agricultura que, com esta implementação, pode optimizar e proteger culturas, reduzir a utilização de fertilizantes e usufruir de sistemas inteligentes de irrigação economizadores de água. Tudo somado resulta, mais uma vez, num aumento da produtividade e do lucro. Mais: a quinta geração móvel, ao ligar “tudo a todos”, aproxima os centros urbanos das áreas rurais, minimizando a disparidade geográfica, especialmente entre interior e litoral, que existe nos dias de hoje. Aqui também a possibilidade dos veículos autónomos se tornarem uma realidade pode ajudar a mitigar a distância geográfica entre as diversas áreas de produção.
Cidades inteligentes
De volta aos centros urbanos, a quinta geração móvel pode criar as chamadas smart cities. As cidades poderão utilizar a tecnologia 5G nos serviços de gestão das áreas, nomeadamente na iluminação, trânsito, segurança, abastecimento de água, segurança e tratamento de resíduos. Isto permitirá uma gestão mais eficiente dos recursos e um aumento na qualidade de vida das pessoas que, num exemplo prático, passarão menos tempo em filas de trânsito onde, graças ao 5G, haverá uma gestão inteligente dos semáforos.
Impacto na economia
Todas estas mudanças vão traduzir-se em “números” significativos para a economia de cada país. Num artigo publicado no “Jornal de Negócios”, Börje Ekholm, presidente e CEO da Ericsson, avança que, «em média, um aumento de 10% na taxa de adopção de banda larga móvel dará origem a um aumento de 0,8% do PIB, além de que, na próxima década, dois terços da mão-de-obra global vão utilizar 5G». Ainda de acordo com o mesmo fabricante, mas agora segundo um estudo realizado pela Ericsson Portugal, a quinta geração móvel, nos próximos dez anos, «terá um impacto de 3,6 mil milhões de euros na economia portuguesa».
Com estes números em mente, é natural que o mercado financeiro venha a sofrer alterações significativas, uma vez que poderá tornar possíveis projectos, há algum tempo adiados, que visam optimizar a experiência do cliente. Por exemplo, a largura de banda e a latência reduzida vão permitir que os smartphones integrem Realidade Aumentada e Realidade Virtual, elevando a experiência do cliente a outro nível. Torna também possível colocar robôs nos diversos agentes financeiros, especialmente preparados para ajudar os clientes nas suas transacções.
Novas tecnologias aplicadas ao sector financeiro
Uma comunicação mais estável e em tempo real tem potencial para aumentar a produtividade, uma vez que coloca todas as áreas de uma empresa em contacto permanente (independentemente da sua localização física). Já a Internet das Coisas – vários equipamentos ligados e a comunicarem entre si – pode desempenhar um papel crucial a ajudar as empresas a criar e disponibilizar soluções aos seus clientes personalizadas e adequadas às necessidades do momento.
Já as instituições financeiras terão que efectuar alterações técnicas nos seus processos back-end, para poderem oferecer mais serviços e melhorar a experiência do cliente. Desde logo, o 5G vai permitir o edge computing, o que significa que os dados vão ser processados mais perto do local onde são gerados, em vez de num local central. A largura de banda e a velocidade vão permitir também algoritmos avançados de Inteligência Artificial e gestão, em tempo real, de activos (equipamentos) baseados em IoT. Por outro lado, os processos de segurança vão também ser alterados e será então possível fazer várias validações, assentes em requisitos biométricos e de análise comportamental.
Passeio virtual pelos investimentos
Quanto aos serviços financeiros não bancários, a Realidade Aumentada vai permitir que as instituições façam a gestão e orientem os investimentos dos clientes através de apresentação imersiva de dados – numa espécie “de passeio virtual” pelas opções disponíveis. Acrescente-se que a latência reduzida do 5G vai automatizar as operações de negociação, o que vai ser vital para as corretoras, uma vez que torna possível a análise de informação (em grande quantidade ou Big Data) em tempo real. No que diz respeito a pagamentos, o 5G vai permitir que este tipo de operação seja integrado em qualquer equipamento, reduzindo (ou eliminando) qualquer atrito no processo. Poderá, inclusive, vir a automatizar pagamentos de actividades diárias das empresas.
Por outro lado, o 5G pode também tornar real a ideia de banco remoto. Por outras palavras, será possível transportar uma agência bancária até áreas mais remotas, com capacidade para efectuar todo o tipo de operações. Pedro Tavares, sócio da Deloitte e Líder de Excelência EMEA de Engenharia e Telecomunicações, esclarece este conceito: «A presença de uma agência pode fazer sentido num dia e não no outro, e, quando o banco é transportável, isso não é problema, porque estamos cobertos do ponto de vista de latência, da capacidade de comunicar com o hub central e da segurança.» O mesmo responsável vai mais longe nas possibilidades do 5G, salientando a capacidade desta tecnologia para escoar volumes de tráfego bastante elevados. Pedro Tavares concretiza a ideia dizendo que «podemos começar a imaginar ter do outro lado não alguém que nos atenda, mas sim um robô em permanente comunicação com os sistemas centrais». Neste sentido, a quinta geração móvel pode promover a inclusão digital e financeira, ao criar um ecossistema financeiro bem conectado, rápido e estável.
Também o sector de seguros poderá sofrer alterações significativas. Tudo porque a velocidade da rede e as tecnologias emergentes, como a Inteligência Artificial e a Internet das Coisas, vão permitir às empresas deste sector não só responder muito mais rapidamente aos clientes, mas também trabalhar grandes quantidades de informação. Desta forma, o sector de seguros poderá oferecer novos serviços completamente adaptados e personalizados às necessidades de cada cliente, num momento específico da sua vida.
Um mundo de possibilidades e desafios
Todas as possibilidades e vantagens do 5G trazem também desafios. Desde logo, a infra-estrutura da rede 5G, que precisa de ser implementada e desenvolvida. Em Portugal, os primeiros passos foram dados com a libertação da frequência dos 700 MHz, antes ocupada pela Televisão Digital Terrestre, que será necessária para o aumento da largura de banda. Por outro lado, há que assegurar que toda a rede está preparada e respeita protocolos de segurança, capazes de proteger o enorme volume de dados com que poderá lidar. Por último, é também necessário lançar no mercado equipamentos capazes de suportar, de raiz, esta tecnologia. Acrescente-se ainda que, especificamenteno caso português, apenas em Abril é que a Anacom vai realizar o leilão para atribuir frequências a todas as operadoras interessadas na adopção do 5G.
Por todas estas razões, podemos assumir que a quinta geração móvel vai precisar de tempo para ser uma realidade, ainda que o Governo português tenha já estabelecido objectivos para a sua cobertura (ver caixa 5G: Objectivos do Governo). Mas este compasso de espera também dá tempo às instituições financeiras e empresas para desenvolverem estratégias e planos que permitam usufruir de todas as possibilidades que o 5G pode oferecer. Até porque a migração de sistemas e serviços de 4G para 5G deve ser feita de forma gradual, para assegurar a existência do mecanismo de segurança necessário a uma rede deste tipo e também para garantir um controlo sobre os custos. No entanto, todos os especialistas são unânimes: o 5G traz consigo uma transformação digital do mundo tal como o conhecemos.




