Enquanto grande parte da Europa enfrentou sucessivas ondas de calor nas últimas semanas, há regiões do planeta onde as temperaturas extremas deixaram de ser um episódio excecional para passarem a fazer parte da rotina diária. Em Banda, no estado de Uttar Pradesh, no norte da Índia, viver com temperaturas próximas dos 50 graus Celsius significa adaptar horários de trabalho, procurar refúgio durante a noite e enfrentar um sistema de saúde cada vez mais pressionado por doenças relacionadas com o calor.
A realidade vivida nesta cidade indiana ilustra de forma clara os impactos das alterações climáticas na vida quotidiana. Cientistas alertam que o aumento da intensidade e da duração das ondas de calor está a expor milhões de pessoas a condições cada vez mais perigosas, numa tendência que se faz sentir em várias regiões do mundo, mas que atinge de forma particularmente severa locais como Banda.
Segundo o Serviço de Alterações Climáticas Copernicus da União Europeia, junho de 2026 foi o mês mais quente alguma vez registado na Europa Ocidental e o segundo mais quente à escala global, com uma temperatura média 1,39 graus Celsius acima da estimativa para o período pré-industrial. Os investigadores consideram mesmo que as duas ondas de calor consecutivas registadas na Europa durante esse mês teriam sido “praticamente impossíveis” sem o impacto das alterações climáticas.
Banda tornou-se um dos locais mais quentes do planeta
Embora as temperaturas elevadas registadas na Europa tenham dominado a atualidade, há locais onde o calor atingiu níveis ainda mais extremos.
Em maio, Banda registou 48,2 graus Celsius, uma das temperaturas mais elevadas verificadas este ano na Índia. Segundo o climatologista e historiador meteorológico Maximiliano Herrera, que acompanha os fenómenos meteorológicos extremos em todo o mundo, a cidade foi considerada o ponto mais quente do planeta em sete ocasiões diferentes ao longo de 2026.
Apesar de, entretanto, os valores máximos terem diminuído ligeiramente, o calor continua sufocante. A chegada das chuvas sazonais aumentou significativamente a humidade, tornando a sensação térmica ainda mais intensa e dificultando a recuperação física da população.
Trabalhar antes do nascer do sol para fugir ao calor
Em Banda, a luta contra o calor começa ainda de madrugada.
Às quatro da manhã, quando grande parte da cidade continua a dormir, Munni Devi, de 70 anos, e os seus quatro filhos já estão no mercado abastecedor a descarregar e transportar toneladas de legumes e fruta que serão distribuídos pelas lojas da região.
Nessa altura, os termómetros já assinalam cerca de 30 graus Celsius.
O mercado enche-se rapidamente de trabalhadores que descarregam tomates, jacas e outros produtos agrícolas, enquanto carrinhos atravessam os corredores estreitos para abastecer pequenos comerciantes. Também muitos compradores antecipam as deslocações para conseguirem concluir as compras antes das horas de maior calor.
Munni Devi afirma que sente as temperaturas agravarem-se de ano para ano e considera que este verão tem sido particularmente difícil. Ainda assim, admite que não tem alternativa.
“Todos sentimos o calor, mas, devido às nossas circunstâncias, temos de o suportar”, afirma a trabalhadora, citada pela Associated Press.
Apesar do desgaste físico provocado pelo trabalho, a família prolonga a atividade até à hora de almoço, regressando apenas depois a casa para descansar durante as horas de maior calor.
Nem em casa existe verdadeiro alívio
Mas nem o regresso a casa representa um descanso.
Segundo Munni Devi, os cortes frequentes no fornecimento de eletricidade fazem com que as ventoinhas deixem de funcionar precisamente quando são mais necessárias.
“Quando falta a eletricidade, nem sequer as ventoinhas funcionam. Por vezes ficamos sem energia durante horas”, relata.
Perante estas condições, a família procura aliviar o calor das crianças recorrendo diariamente a mangueiras de água para as refrescar.
A falta de eletricidade durante várias horas consecutivas tornou-se, assim, mais um fator que agrava os efeitos das temperaturas extremas e reduz a capacidade das famílias para enfrentarem o calor.
A solidariedade também procura proteger os animais
Enquanto muitos habitantes permanecem dentro de casa durante as horas de maior calor, aqueles que dependem do trabalho diário continuam nas ruas.
Vendedores ambulantes e condutores de autorriquexós mantêm a atividade durante a tarde, apesar das temperaturas elevadas, na esperança de conseguirem algum rendimento adicional.
Há também quem tenha decidido concentrar esforços na proteção da fauna local.
Shobharam Kashyap, de 70 anos, dedica grande parte do tempo à construção artesanal de pequenas casas de madeira destinadas a pardais.
Segundo explica, ele e outros voluntários já instalaram mais de 15 mil ninhos artificiais em árvores e edifícios espalhados por Banda, criando refúgios para aves que enfrentam um ambiente cada vez mais hostil.
Muitos desses abrigos são pintados de verde, uma cor que, segundo o próprio, parece ser a preferida dos pardais.
Além dos ninhos, Kashyap distribuiu recipientes de barro com água junto da sua habitação e noutros pontos da cidade, permitindo que as aves possam beber e refrescar-se.
O voluntário considera que este trabalho representa também uma continuação das tradições culturais indianas.
“A nossa cultura sempre incentivou a alimentação das aves. As mulheres que visitam os templos oferecem tradicionalmente arroz. Nem o sacerdote nem a divindade o consomem: são as aves que o comem”, explica à Associated Press.
Hospitais enfrentam cada vez mais doentes
As consequências das temperaturas extremas fazem-se sentir igualmente no principal hospital distrital de Banda.
Ao longo das tardes e do início da noite, os corredores enchem-se de pessoas afetadas por problemas provocados pelo calor, desde desmaios e exaustão térmica até casos de insolação.
Nas salas de espera, os bancos permanecem ocupados por doentes sentados ombro a ombro, enquanto familiares tentam aliviar o sofrimento abanando folhas de papel para criar alguma circulação de ar. Entre camas e corredores, profissionais de saúde administram soro intravenoso e prestam assistência contínua aos casos mais graves.
O diretor clínico do hospital, Abhishek Pranayami, afirma que a unidade enfrenta todos os anos um aumento significativo de doentes durante o verão e alerta que essa tendência se está a intensificar.
Segundo o responsável, “todos os verões assistimos a um aumento do número de doentes” e “esse número cresce todos os anos”.
O médico explica que a maioria dos casos está relacionada com desidratação, diarreia, vómitos e dores abdominais, patologias cuja incidência aumenta à medida que as temperaturas sobem.
Embora alguns doentes recuperem rapidamente, outros necessitam de internamentos prolongados, aumentando a pressão sobre os serviços de saúde.
“Há uma enorme pressão sobre nós e sobre toda a equipa”, admite.
Quando dormir em casa deixa de ser uma opção
O calor não desaparece com o pôr do sol.
Mesmo durante a noite, as temperaturas mantêm-se suficientemente elevadas para impedir milhares de pessoas de descansarem nas próprias habitações, sobretudo nas casas mais pequenas, que acumulam calor ao longo de todo o dia.
Na estação ferroviária de Banda, dezenas de famílias procuram algum alívio aproveitando a circulação de ar nas plataformas abertas.
Adultos e crianças dormem sobre mantas estendidas no chão de pedra, utilizam mochilas como almofadas ou ocupam bancos da estação. Outros instalam-se junto às bilheteiras, apesar da forte iluminação. Entre eles, cães procuram igualmente algum conforto deitados no chão.
Há ainda trabalhadores que optam por dormir junto à entrada da estação ou mesmo sobre a gravilha, convencidos de que o ar mais livre existente naquela zona lhes permitirá descansar algumas horas.
Mesmo perante o ruído constante provocado pela circulação de comboios e passageiros, aquele espaço oferece condições mais suportáveis do que muitas habitações.
Para várias famílias com crianças pequenas, o calor torna o sono praticamente impossível. Muitas acabam por permanecer acordadas durante parte da noite, reunidas em torno de um telemóvel enquanto esperam que as temperaturas desçam.
Especialistas alertam para o agravamento das alterações climáticas
Para Abhiyant Tiwari, especialista em clima e saúde da organização NRDC India, sediada em Nova Deli, o que está a acontecer em Banda representa uma transformação profunda da realidade climática.
Segundo o especialista, “as alterações climáticas estão a deslocar a média”. Embora a cidade sempre tenha sido conhecida pelos verões muito quentes, o que mudou foi “a intensidade, a duração e o número de pessoas expostas a condições de calor perigosas”.
O especialista alerta ainda para um fator particularmente preocupante: as temperaturas elevadas durante a noite impedem que o organismo recupere do esforço físico acumulado ao longo do dia, aumentando os riscos para a saúde.
Autoridades reforçam resposta, mas admitem limitações
As autoridades locais dizem estar a desenvolver várias medidas para reduzir os impactos das temperaturas extremas.
Segundo Amit Aasery, administrador distrital de Banda, foram criados centros de arrefecimento, distribuídas centenas de milhares de embalagens de sais de reidratação oral e reforçada a vigilância nos hospitais sempre que são emitidos alertas de calor.
Ao mesmo tempo, os serviços locais monitorizam a evolução dos níveis das águas subterrâneas, da humidade dos solos e da perda de vegetação, procurando igualmente melhorar o abastecimento de água e reforçar as campanhas de sensibilização dirigidas à população.
Ainda assim, Amit Aasery reconhece que a capacidade de resposta das autoridades tem limites perante um fenómeno desta dimensão.
“O que está a acontecer aqui é um fenómeno global. Acontece por causa das alterações climáticas. Nós somos quem sofre as consequências”, conclui.














