Não se aproxima apenas um novo ano. Aproxima-se o início de uma nova década e está na altura de tentar antecipar o que aí vem: a Fortune pediu ajuda a 25 das mentes mais brilhantes da actualidade para juntar as 25 ideias que deverão moldar os anos 2020. Segundo a publicação, o futuro é agora.
Economia e Mercados
1 – Empresas e governos voltarão a trabalhar em conjunto. Segundo a economista Mariana Mazzucato, existem sinais em toda a parte de que os mercados capitalistas não estão a funcionar como deveriam. A solução poderá passar por uma relação mais estreita entre os sectores privado e público, sob pena de a inovação, crescimento e lucro decrescerem. Caso isto não aconteça, também se prevê um aumento da desigualdade;
2 – A nova era da Economia está a chegar. Robert Shiller, professor na Universidade de Yale e vencedor de um Prémio Nobel acredita que está a nascer uma nova era da Economia enquanto disciplina: em traços gerais, menos mecânica e com mais storytelling. Segundo o investigador, o lado da narrativa ganhará espaço no estudo da Economia, uma vez que o discurso pode desempenhar um papel fundamental na definição do curso económico de um país;
3 – Um “padrão de ouro” para as moedas digitais irá emergir. Para a década que se avizinha existe a possibilidade de ser criada uma nova forma de dinheiro, apelidada de stablecoin – moeda digial baseada em moedas físicas. Klaus Schwab, fundador e executive chairman do Fórum Económico Mundial, acredita que esta mudança permitirá oferecer soluções financeiras a partes do globo ainda excluídas desta possibilidade. Ainda é necessária, porém, a criação de um “padrão de ouro” para este tipo de moeda, aceite e partilhado por entidades como bancos centrais e governos. Só assim será possível inclusão a nível bancário em países como Índia, Indonésia ou Etiópia;
4 – O capitalismo vai salvar o planeta (a sério). Diz Andrew McAfee, investigador na MIT Sloan School of Management, que o capitalismo poderá ser o remédio para a sua própria doença. O segredo estará na regulação por parte do governo, de modo a assegurar que o capitalismo não acaba com o planeta como o conhecemos (a nível ambiental). Devem ser implementadas regras que protejam espécies em vias de extinção e taxas de carbono que levariam as empresas a pagar aos cidadãos com base na quantidade de dióxido de carbono que emitem;
5 – Os negócios vão abraçar a responsabilidade de salvar o capitalismo. Ainda no tema do capitalismo, Paul Collier, professor de Economica e Política Pública na Blavatnik School of Government, considera que o capitalismo é o único sistema em 10 mil anos que tem conseguido melhorar os padrões de vida. No entanto, não funciona bem em piloto automático e, tempos a tempos, descarrila. O docente acredita ainda que cabe às empresas e aos negócios salvar o capitalismo, negando a ideia de que o lucro é o seu único objectivo: criação de emprego e pagamento de impostos também são métricas úteis no todo que é a sociedade;
Saúde
6 – Genómica irá reescrever a medicina – e a prevenção. A modificação de genes poderá ser utilizada para combater o cancro, doenças relacionadas com o sangue ou condições hereditárias, por exemplo. Jennifer Doudna, professora da Universidade de Berkely e cientista especializada em bioquímica, acredita que a evolução no campo da Genómica permitirá tratar doenças mas também prevenir, ainda que custo e acesso sejam obstáculos no caminho;
7 – Carne à base de células irá mudar a forma como comemos. A sustentabilidade tem guiado o crescimento dos produtos alimentares à base de plantas – mais do que a saúde ou questões éticas. Quem o diz é John Mackey, co-fundador e CEO da Whole Foods, segundo o qual o futuro poderá passar por carne à base de células, ou seja, carne feita a partir de células de animais – e não dos próprios animais. Esta poderá ser uma solução mais ética, mais sustentável e mais barata;
8 – O 31.º direito humano deveria ser determos os nossos próprios dados médicos. Richie Etwaru, fundador e CEO da Hu-manity.co, considera que existe uma falha de segurança fundamental entre consumidores e empresas. A proposta da Hu-manity.co passa por actualizar os típicos formulários de Termos & Condições, oferecendo maior controlo às pessoas sobre os seus dados, nomeadamente no que à sua saúde diz respeito: em vez de comprarem dados dos consumidores, as empresas alugariam essas informações. Richie Etwaru acredita mesmo que deveria ser adicionado um 31.º direito à carta das Nações Unidas;
Locais de trabalho
9 – O futuro do trabalho são as competências – por isso, parem de se preocupar com os cursos. Quem disse que uma licenciatura é o único caminho para um trabalho bem pago? Para Jamie Dimon, chairman e CEO da JPMorgan Chase, devem ser adoptadas formas mas inclusivas de contratar alguém, não olhando exclusivamente para a formação académica. As competências devem orientar os processos de recrutamento;
10 – O que é que levará mesmo à igualdade no local de trabalho? Os homens darem um passo atrás. A igualdade continuará a ser um tema quente ao longo da próxima década e a solução poderá estar numa mudança de comportamento do lado masculino. Segundo a crítica cultural Ruth Whippman, as organizações têm dito às mulheres que as suas normas não são as correctas, pedindo-lhes que sejam mais parecidas com os homens. Porém, a solução poderá passar por pedir aos homens para darem um passo atrás, ouvir mais e serem mais humildes. «Talvez, em vez de dizermos às mulheres para deixarem de pedir desculpa, temos de encorajar os homens a pedir desculpa mais vezes quando erram»;
11 – A semana de trabalho de quatro dias tornará as empresas mais produtivas. Reduzir a semana de trabalho para quatro dias pode ajudar as empresas a diminuir o respectivo impacto ambiental, tornar o fosso da oportunidade entre homens e mulheres mais pequeno, melhorar a saúde mental dos colaborares e aumentar a produtividade. Andrew Barnes, empresário e filantropo da Nova Zelândia, já testou este horário e verificou que o envolvimento dos funcionários aumentou 40%. Agora, quer ajudar empresas de todo o mundo a adoptar a semana de quatro dias;
Sociedade
12 – As mulheres vão alterar a força de trabalho (dramaticamente). Melinda Gates, co-chair da Bill & Melinga Gates Foundation e fundadora da Pivotal Ventures, é clara: mulheres (com todo o tipo de origens) ganharão poder de decisão e de controlo de recursos nas várias esferas da sociedade. O resultado serão novas narrativas, produtos e políticas, que evidenciem um espectro mais alargado de perspectivas;
13 – Estar presente voltará a ser importante. A próxima década deverá ser sinónimo de redescoberta do valor da presença física, tal como aponta Geoff Colvin, editor da Fortune. O contacto e a interacção cara a cara voltarão a ser importantes, por oposição ao isolamento social. Até porque estudos mostram que a solidão pode ser prejudicial para a saúde, tal como o tabagismo ou o alcoolismo;
14 – Investir na educação das raparigas resulta em grandes dividendos. Malala Yousafzai defende que, quando lhes é dada a oportunidade, as raparigas mostram que são capazes. É preciso apostar na sua educação, em todos os pontos do planeta. A co-fundadora do Malala Fund e vencedora de um Prémio Nobel da Paz adianta que se todas as raparigas completassem 12 anos de ensino, a economia global ganharia até 30 milhões de milhões de dólares;
15 – Pensar em grande irá redesenhar o mundo. No momento de desenhar algo, é preciso pensar de que forma o projecto em questão irá afectar o meio que nos rodeia, a sociedade e, em última instância, o planeta. Deve ser considerada a cadeia de distribuição, os materiais necessários, entre outros, de acordo com Sandy Speicher, CEO da IDEO;
Tecnologia e Inteligência Artificial
16 – Capital de risco (venture capital) irá para além do vale (Silicon Valley). A disponibilização de código em regime de open source e plataformas como Amazon Web Services permitem que mais empresas nasçam para lá das fronteiras de Silicon Valley. Aileen Lee, fundador da Cowboy Ventures, está certa de que serão criadas cada vez mais tecnológicas multimilionárias em cidades como Seattle ou Austin;
17 – As grandes tecnológicas não vão reinar. Trsitan Harris, director e co-fundador do Center for Humane Technology, afirma que o matrix existe – só não é exactamente como no filme. O antigo colaborador da Google acredita que vivemos numa realidade fabricada por máquinas, capazes de nos manipular. A solução para este problema estará na regulação de grandes tecnológicas como Facebook ou Google, obrigando-as a separar o lucro da capacidade de controlar e moldar o comportamento humano. Isto significaria, por exemplo, dirigirem parte dos seus lucros a áreas de interesse para a sociedade, nomeadamente jornalismo de investigação;
18 – A linha entre humano e bot desaparecerá – e está tudo bem. Geoff Colvin aponta para uma tendência que pode ser desconcertante: quando alguém nos resolve um problema num site de uma marca, por exemplo, não nos interessará se esse alguém é humano ou não. Conviver com humanoids – seja sob a forma de texto, áudio, vídeo ou até interacção física – fará parte da rotina;
19 – Os anos 2020 irão ligar a América rural – ou perdê-la. Olhando para a realidade norte-americana, Beth Ford considera que a próxima década será crucial para ligar o lado mais rural do país, sob pena de o perder por completo. Para a presidente e CEO da Land O’Lakes, investimento e tecnologia – mas também ligação humana – serão necessários para manter a América rural. Isto significa, por exemplo, disponibilizar internet rápida, o equivalente à electricidade para a geração dos nossos avós;
20 – “Higiene” da inteligência artificial determinará o seu sucesso. Joy Buolamwini, fundadora da Algorithmic Justice League, acredita que a inteligência artificial poderá sofrer com a sua própria imparcialidade – apesar de se tratar um sistema tecnológico. É preciso reconhecer isto mesmo para garantir a “higiene” desta tecnologia: este conceito assenta na ideia de que é preciso monitorizar continuamente a saúde da inteligência artificial, evitando preconceitos (tal como acontece com os humanos);
21 – As tecnológicas vão decidir, finalmente, que o melhor para elas próprias é fazer dispositivos que distraiam menos. Embora possa parecer irónico, a tecnologia terá o poder de nos libertar dos vícios e das distracções que tantas vezes estão a ela associados. Segundo Nir Eyal, autor do livro “Indistractable”, não devemos esperar que as empresas cheguem a essa conclusão sozinhas, mas sublinha que a sociedade está a acordar para essa realidade, o que influenciará as tecnológicas: os sistemas operativos iOS e Android, por exemplo, têm vindo a reforçar as ferramentas de controlo parental;
22 – Consumidores devem deter – e poder vender – os seus dados pessoais. Christopher Tonetti acredita que os consumidores não só devem ser donos dos seus próprios dados, como também devem ter a oportunidade de os vender se assim entenderem. Depois de uma década sem qualquer tipo de controlo, seguem-se 10 anos de consciencialização para esta questão. De acordo com o economista, os utilizadores de internet poderão vender as suas informações a quantas (e quais) empresas quiserem;
Ambiente
23 – Testemunharemos o fim dos motores de combustão interna. Na próxima década, iremos assistir ao fim da era dos motores de combustão interna, fruto do investimento em sistemas eléctricos ou com base em hidrogénio. Segundo Christiana Figueres, antiga secretária executiva da Nasções Unidas, as autoridades e governos começam a perceber que é preciso mudar o paradigma: as nossas cidades estão severamente poluídas maioritariamente devido à combustão de combustíveis fósseis, provocando perto de sete milhões de mortes por ano, a nível anual. No mesmo sentido, os fabricantes automóveis estão a dar-se conta de que a procura por veículos com poucas (ou nenhumas) emissões de gases está a aumentar exponencialmente. Estaremos perante um período de transição de 10 a 15 anos, mas em 2030 já não deverá ser comprado um único carro a gasóleo ou gasolina;
24 – O desperdício de hoje vai substituir o plástico de amanhã. A solução para o plástico não está na reciclagem, segundo garante Tony Fadell, um dos responsáveis pela invenção do iPhone. O profissional acredita que é necessário um material que se desintegre por completo, independentemente do local onde acabe, sendo o PHA uma solução possível. Este material tem origem no processo de fermentação de bactérias e decompõe-se como uma folha. Pode ser produzido a partir de desperdício alimentar, incluindo azeite rançoso;
25 – Sozinha, a tecnologia não consegue salvar o planeta – também é precisa transparência. A última previsão para a próxima década chega pelas mãos de Fred Krupp. Diz o presidente do Environmental Defense Fund que são necessárias políticas governamentais mais ambiciosas, mas que as novas tecnologias e níveis mais elevados de transparência podem ajudar a acelerar o processo em direcção a um planeta mais saudável. 84% dos 600 executivos inquiridos pelo fundo liderado por Fred Krupp afirma que a tecnologia irá ter um efeito positivo na forma como os seus negócios impactam o ambiente. Além disso, mais de 85% espera que os clientes, funcionários e investidores responsabilizem esses mesmos negócios pelo impacto que têm no planeta.














