25 anos depois, a dor mantém-se: Portugal recorda a tragédia de Entre-os-Rios

Na noite fria e chuvosa de 4 de março de 2001, a ponte Hintze Ribeiro, que ligava Entre-os-Rios, no concelho de Penafiel, a Castelo de Paiva, ruiu subitamente

Pedro Gonçalves
Março 4, 2026
8:00

Assinalam-se hoje 25 anos sobre a tragédia de Entre-os-Rios, um dos episódios mais marcantes e traumáticos da história recente de Portugal. Um quarto de século depois do colapso da ponte Hintze Ribeiro, que provocou a morte de 59 pessoas, o impacto humano e emocional permanece vivo para dezenas de famílias que continuam a conviver com um luto que nunca foi plenamente encerrado.

Na noite fria e chuvosa de 4 de março de 2001, a ponte Hintze Ribeiro, que ligava Entre-os-Rios, no concelho de Penafiel, a Castelo de Paiva, ruiu subitamente, arrastando para as águas do rio Douro um autocarro com 53 passageiros e três viaturas ligeiras, onde seguiam mais seis pessoas. Não houve sobreviventes. A operação de busca, que mobilizou meios inéditos no Douro e na costa atlântica, permitiu recuperar apenas 23 dos 59 corpos.



De acordo com a Associação dos Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios, mais de 20 familiares continuam, ainda hoje, a necessitar de apoio psicológico e psiquiátrico. Augusto Moreira, presidente da associação, admite que há situações que se agravaram com doenças graves e vidas que nunca mais recuperaram estabilidade. Para muitos, o tempo não fechou as feridas abertas naquela noite.

Luto prolongado e responsabilidade que nunca chegou

Os inquéritos promovidos pelo Governo e pela Assembleia da República concluíram que o colapso resultou de uma conjugação de fatores, incluindo a extração de inertes a montante da ponte, que terá fragilizado os pilares. No plano político, a tragédia teve consequências imediatas: o então ministro do Equipamento, Jorge Coelho, demitiu-se horas depois, assumindo responsabilidades com a frase que ficaria para a história — “a culpa não pode morrer solteira”.

No plano judicial, porém, a culpa acabou por “morrer solteira”. Em outubro de 2006, o Tribunal de Castelo de Paiva absolveu os seis técnicos acusados — quatro engenheiros da ex-Junta Autónoma de Estradas e dois de uma empresa projetista — por considerar que, à data das inspeções, não existiam regras técnicas claras que enquadrassem a sua atuação. Para os familiares, essa decisão foi particularmente dolorosa.

O Estado atribuiu 50 mil euros por vítima, acrescidos de valores entre 10 mil e 20 mil euros por herdeiro, em função do grau de parentesco. Ainda assim, para muitos, a indemnização não substitui a ausência de responsabilização criminal.

A tragédia colocou Castelo de Paiva no mapa pelas piores razões e marcou profundamente a comunidade local. À época presidente da Câmara, Paulo Teixeira foi dos primeiros a chegar ao local. Dias depois, emocionou-se ao lado do então Presidente da República, Jorge Sampaio, numa visita que simbolizou o choque nacional.

Memória coletiva e 25 anos depois

Grande parte das vítimas era oriunda da mesma freguesia, a Raiva, o que criou uma forte rede de apoio entre famílias. Durante anos, as reuniões juntaram centenas de pessoas. Ainda hoje há familiares que mantêm rituais mensais junto ao monumento erguido em memória das vítimas, o “Anjo de Portugal”, inaugurado em 2003, com os nomes das 59 pessoas inscritos na base.

Pouco mais de um ano após o acidente, a nova travessia sobre o Douro foi inaugurada, a 4 de maio de 2002, numa obra construída em tempo recorde. O Governo lançou ainda um programa de emergência para o concelho, avaliado em cerca de 80 milhões de euros, que incluiu a construção de duas novas pontes.

Hoje, 25 anos depois, Entre-os-Rios continua a ser sinónimo de dor, mas também de união e exigência de responsabilidade pública. Para as famílias, recordar é uma forma de justiça.

Memorial em Eja presta tributo às vítimas e aos operacionais

Estrutura evocativa em Eja presta tributo às 59 vítimas e a todas as entidades que participaram no socorro há 25 anos.

O Município de Penafiel assinala hoje os 25 anos da tragédia com a inauguração de um memorial em Entre-os-Rios, na freguesia de Eja. A estrutura presta tributo às 59 vítimas do colapso e reconhece o papel de todos os profissionais e entidades envolvidos nas operações de socorro e resgate.

O memorial integra uma placa evocativa das forças de segurança, proteção civil e equipas de emergência que participaram numa das mais complexas operações de socorro realizadas em Portugal. O presidente da Câmara de Penafiel, Pedro Cepeda, sublinha que se trata de uma homenagem de respeito e memória, destinada a manter viva a recordação de um acontecimento que marcou profundamente a comunidade e o país.

A cerimónia integra-se nas comemorações do 256º aniversário da elevação de Penafiel a cidade, reforçando o simbolismo desta data.

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