14 armazéns em 17 dias: Ucrânia muda de estratégia e leva a guerra ao quotidiano de milhões de russos

Durante mais de três anos de guerra, a Ucrânia concentrou grande parte dos seus ataques de longo alcance contra refinarias, depósitos de combustível, instalações energéticas e fábricas ligadas à indústria militar russa. Agora, Kiev parece ter aberto uma nova frente

Francisco Laranjeira

Durante mais de três anos de guerra, a Ucrânia concentrou grande parte dos seus ataques de longo alcance contra refinarias, depósitos de combustível, instalações energéticas e fábricas ligadas à indústria militar russa. Agora, Kiev parece ter aberto uma nova frente: a economia do quotidiano.

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Em apenas 17 dias, drones ucranianos destruíram 14 armazéns da Wildberries, a maior plataforma de comércio eletrónico da Rússia, segundo o jornal espanhol ‘El Mundo’. Estimativas citadas pelo diário apontam para a perda de mais de 1,5 milhões de metros quadrados de espaço logístico — cerca de 27% da capacidade total de armazenamento da empresa.

250 mil metros quadrados destruídos num único ataque

O ataque mais destrutivo ocorreu a 18 de julho, em Elektrostal, na região de Moscovo. Um complexo com cerca de 250 mil metros quadrados ficou completamente destruído, um trabalhador de 25 anos morreu e mais de 60 pessoas ficaram feridas.

Seguiram-se ataques contra instalações em Penza, Samara, Vladimir, Ryazan, Tambov, São Petersburgo, Stavropol e Krasnodar, além de outros centros logísticos de menor dimensão espalhados pelo território russo.

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A Wildberries não é uma refinaria nem uma fábrica de armamento, embora a plataforma também comercialize equipamento utilizado por militares, incluindo capacetes, coletes e acessórios para drones. O verdadeiro valor estratégico da empresa está, porém, na enorme rede comercial que depende da sua infraestrutura.

Muito mais do que a “Amazon russa”

A comparação com a Amazon ajuda a perceber a dimensão da Wildberries, mas não conta toda a história. A plataforma funciona sobretudo como um gigantesco mercado para vendedores independentes: pequenas fábricas, oficinas, produtores de cosméticos, empresas têxteis e negócios familiares armazenam ali os produtos que depois são distribuídos por toda a Rússia.

Isso significa que destruir um armazém não provoca prejuízos apenas à Wildberries. Pode atingir simultaneamente milhares de vendedores, deixando mercadoria destruída ou imobilizada, atrasando entregas e pagamentos e criando problemas de liquidez a pequenas empresas fortemente dependentes da plataforma.

É precisamente aí que poderá estar a mudança de estratégia. Depois dos ataques destinados a reduzir a capacidade russa de produzir e distribuir combustível, a campanha contra grandes centros logísticos leva os efeitos económicos da guerra diretamente até consumidores e empresas afastados da frente de combate.

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“As coisas estão a piorar a cada dia”

Os efeitos começam já a ser sentidos pelos clientes. “Há muitos atrasos. As coisas estão a piorar a cada dia”, contou ao ‘El Mundo’ Valeria, mãe de três filhos que vive em Volgogrado.

Outros consumidores estão a repartir as encomendas por diferentes plataformas para reduzir o risco de atrasos. A Wildberries tornou-se particularmente importante desde o início da guerra, à medida que muitas empresas estrangeiras abandonaram ou reduziram as operações na Rússia e milhões de consumidores passaram a depender ainda mais de plataformas nacionais.

Para os pequenos empresários, a importância é ainda maior: vender através da Wildberries permite chegar a clientes em todo o país sem criar uma rede própria de armazenamento e distribuição.

45% do comércio eletrónico russo

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Segundo uma análise da ‘Riddle Russia’ citada pelo jornal espanhol, a Wildberries controla aproximadamente 45% do comércio eletrónico na Rússia e poderá acumular uma dívida superior a 1,3 biliões de rublos.

Apesar da dimensão dos danos, os ataques dificilmente provocarão, por si só, o colapso da empresa. A análise considera-a demasiado importante para que o Estado russo e os grandes bancos permitam a sua queda. O problema poderá estar no custo de a manter de pé.

Num sistema financeiro que já enfrenta pressão crescente, apoiar uma empresa desta dimensão poderá aumentar os encargos sobre bancos e Estado. Assim, o risco apontado não é tanto uma falência imediata da Wildberries, mas uma erosão gradual da capacidade financeira russa para absorver novos choques.

Um alvo enorme, concentrado e difícil de substituir

Do ponto de vista militar, estes centros apresentam ainda características que os tornam particularmente vulneráveis: são instalações gigantescas, facilmente identificáveis por imagens de satélite e concentram num único espaço milhões de produtos, sistemas de triagem, veículos e operações logísticas praticamente permanentes.

Quando um complexo destes é destruído, não desaparecem apenas as mercadorias armazenadas. É necessário encontrar novas instalações, reorganizar rotas, redistribuir encomendas e reconstruir uma cadeia logística que pode demorar semanas ou meses a normalizar.

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Quando a guerra chega a casa

Para o Kremlin, existe também uma dimensão política. Durante grande parte do conflito, muitos russos conseguiram viver a guerra como algo relativamente distante, sobretudo fora das regiões fronteiriças e das famílias diretamente afetadas pelas baixas militares.

Os ataques contra infraestruturas utilizadas diariamente alteram essa perceção. Primeiro surgiram perturbações na internet e problemas no abastecimento de combustíveis. Agora são encomendas que não chegam, produtos indisponíveis, devoluções bloqueadas e mercadorias perdidas.

É precisamente essa sensação de normalidade que poderá constituir o verdadeiro alvo da nova campanha ucraniana. Mais do que destruir a Wildberries, Kiev poderá estar a tentar distribuir os custos da guerra por centenas de milhares de empresas e milhões de consumidores.

Depois das refinarias e das instalações militares, a guerra começa assim a entrar num território muito diferente: o carrinho de compras dos russos.

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