O Governo britânico já tinha alertado sobre as consequências do Brexit na economia do Reino Unido e, passados quase 100 dias desta separação efetiva, os primeiros efeitos desta decisão já se fazem sentir.
As previsões “mais negras” por parte do próprio Governo britânico e do lado do “Remain” apontavam para uma recessão imediata, uma queda abrupta nos preços das casas e uma queda acentuada nas exportações, e os dados já começam a comprovar isso mesmo.
O impacto negativo na economia do Reino Unido é já evidente, mesmo que amplamente ofuscado pela pandemia de COVID-19, e a extensão total dos danos será ainda mais evidente quando as empresas reabrirem totalmente após o confinamento.
Impacto a curto prazo
Num relatório publicado antes do referendo de 2016, o Ministério das Finanças britânico previa que a saída da UE, seguida pelo desencadeamento imediato do processo de retirada do Artigo 50, resultaria numa queda de 3,6% do PIB em dois anos, além de mais 520.000 desempregados e uma queda de 10% no preço das casas. Mas não se confirmou, até porque o Governo não invocou o Artigo 50 até Março de 2017. Em Junho de 2018, o PIB havia aumentado mais de 3%, o desemprego baixou na ordem das 280.000 pessoas e o preço médio das casas subiu mais de 7%.
Com a pandemia, no entanto, o PIB baixou quase 10% no ano passado e a economia só veio a recuperar parcialmente das enormes perdas sofridas durante o primeiro confinamento na primavera passada, deixando a Grã-Bretanha ainda mais abaixo dos níveis pré-pandémicos de produção do que qualquer outro país do G7.
O Ministério das Finanças tinha inclusive previsto que, se o Reino Unido saísse da UE e conseguisse um acordo comercial com o bloco, em 15 anos a economia do país ficaria entre 4,6% e 7,8% menor do que se tivesse ficado na UE. Embora a Grã-Bretanha tenha estado formalmente fora do mercado único da UE por menos de 100 dias, de acordo com a previsão da OBR (Office for Budget Responsibility), o Brexit já terá reduzido o PIB em 1,4% desde o referendo e espera-se agora que, a longo prazo, seja 4% menor do que se a Grã-Bretanha tivesse permanecido na UE.
Custo de vida aumentou
Em abril de 2016, o Governo britânico também tinha alertado sobre o aumento de custo de vida, aliás, chegou mesmo a enviar um folheto a todas as famílias, incentivando-as a votar a favor da permanência na UE, porque uma libra em queda tornaria as importações mais caras – e cerca de metade de todas as importações do Reino Unido vêm da UE.
A previsão acabou por se confirmar, com a Libra a cair até 18% em relação ao Euro dois anos após o referendo, e continuando 12% abaixo do seu nível no dia da votação do Brexit.
Além disso, a inflação dos preços disparou, alterando os padrões de vida, ainda que tenha depois decrescido por causa da pandemia.
Quebra nas exportações
O Governo britânico tinha também alertado que deixar a UE dificultaria a vida às empresas exportassem produtos para o bloco, enfrentando custos mais elevados.
Mais um facto que se veio a confirmar, com as empresas do Reino Unido a terem de lidar com burocracia adicional, como certificados sanitários de exportação, para transferir mercadorias para a UE. Além de que, em Janeiro, as exportações para o continente diminuíram 41% em relação ao mês anterior.
Impacto no sector financeiro
Antes do referendo, os especialistas alertaram também que a saída da UE desencadearia uma onda de desemprego na área financeira, com a empresa de contabilidade PricewaterhouseCoopers a prever até 100.00 desempregados.
Na verdade, muito poucos empregos foram transferidos para a UE – 7.600 cargos foram transferidos até Março, de acordo com a consultora EY –, ainda assim, muitos empregos poderão vir a ser extintos, caso a Grã-Bretanha e a UE não cheguem a acordo sobre um amplo acesso das empresas financeiras do Reino Unido ao mercado único, algo que perderam como consequência do Brexit.
No entretanto, quase todas as negociações de ações da UE nas bolsas do Reino Unido – mais de 6 bilhões de euros em transações diárias – foram transferidas para o bloco em Janeiro e as gigantes do setor bancário, como JPMorgan Chase & Co. e Goldman Sachs Group Inc., transferiram centenas de milhões de euros para os seus novas filiais em todo o bloco.
Sistema nacional de saúde
A campanha do lado do “Leave” fez previsões menos concretas e específicas sobre os benefícios económicos do Brexit, mas uma delas destaca-se: o compromisso de redirecionar os 350 milhões de libras por semana que o Reino Unido enviou à UE para o Serviço Nacional de Saúde. Só que o número veio a confirmar-se demasiado alto face à realidade, porque a contribuição semanal líquida do Reino Unido para a UE totalizou apenas os 250 milhões de libras, depois do desconto que a Grã-Bretanha recebeu. Além de que uma parte significativa desse pagamento também voltou para o Reino Unido na forma de gastos do sector público da UE.
Em 2018, o Reino Unido ainda anunciou planos para aumentar os gastos com o Serviço Nacional de Saúde britânico em 394 milhões de libras por semana a partir de 2023, um aumento que a então primeira-ministra Theresa May disse que seria parcialmente financiado por fundos que, de outra forma, teriam ido para a UE. Mas o Reino Unido ainda terá de enviar aproximadamente 20 mil milhões de libras para a UE nos próximos sete anos como parte do acordo do Brexit. E o impacto negativo do Brexit no PIB e nas receitas fiscais deve superar qualquer economia de custo por não haver mais contribuições para o bloco, de acordo com o Instituto de Estudos Fiscais.
A longo prazo?
O custo total da decisão da Grã-Bretanha de romper os laços com o seu maior e mais próximo parceiro comercial provavelmente só ficará claro quando as restrições da pandemia aliviarem e os negócios voltarem ao normal. Certo é que o debate ainda está longe de ser resolvido.














